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01 set 2025
Organizar a resistência anti-imperialista na América Latina
Trump enviou destróieres armados de mísseis e protegidos por um sistema antimíssil à costa da Venezuela. Esse aparato bélico é acompanhado de quatro mil fuzileiros navais e marinheiros. Segundo o governo norte-americano, esse atentado à soberania da Venezuela se deve à decisão da Casa Branca de combater os cartéis de drogas na América Latina.
Trump decidiu que o narcotráfico se constitui de organizações terroristas. A caracterização de terrorismo foi aplicada às organizações que resistiram e resistem à opressão imperialista de armas em punho. Assim, se estabeleceu um critério de intervenção militar em qualquer parte do mundo. É bem conhecida as ações intervencionistas em países do Oriente Médio, Ásia e África. Agora, Trump pretende estender o braço armado norte-americano na América Latina criando uma figura inexistente que é o terrorismo dos cartéis.
A violência dos narcotraficantes não está voltada contra a dominação imperialista. Responde ao choque com o ordenamento legal dos Estados burgueses. Confundir a violência das organizações que resistem à violência dominadora das potências com a violência marginal dos cartéis é uma manobra visível e grosseira. Está aí por que o Brasil, pelo menos por enquanto, não aceitou assumir essa caracterização, tendo em vista o claro objetivo intervencionista dos Estados Unidos na América Latina.
Trump, porém, tem conseguido arrastar aliados para essa pantomina, como a Argentina, Paraguai, Equador e El Salvador. O cerco à Venezuela com os destróieres se insere no critério inventado pelo governo Trump de que a Venezuela é responsável pelos males do narcotráfico que atingem os Estados Unidos, o maior mercado consumidor de drogas.
Segundo o presidente republicano, o regime de Nicolás Maduro abriga o cartel Tren de Aragua. Nas palavras de Trump o “regime de Maduro não é um governo legítimo – é um cartel narcoterrorista”. É oferecida a recompensa de US$ 50 milhões para quem entregar informações que permitam a prisão de Maduro. Em resposta, o governo venezuelano vem arregimentando voluntários para formar uma milícia com cerca de 4,5 milhões de combatentes. A fronteira com a Colômbia foi reforçada pelas Forças Armadas. São sinais de perigo real de uma intervenção dos Estados Unidos, embora pareça no momento inviável.
Nesse terreno, Trump se voltou ao México assinalando sua disposição de intervir contra o cartel de Sinaloa. A presidente, Cllaudia Sheinbaum, afastou a possibilidade de intervenção, uma vez que o México tem procurado colaborar com o seu vizinho imperialista.
É importante assinalar a ofensiva do imperialismo sobre o Paraguai. Um memorando assinado prevê a criação de um “centro antiterrorismo na tríplice fronteira” no Paraguai, o que envolve Argentina e Brasil.
O fundamental está em que os Estados Unidos lançaram uma operação contra a soberania da Venezuela. É necessário lembrar as ameaças de Trump em ocupar militarmente o Panamá. O motivo alegado, nesse caso, seria a influência da China no Canal do Panamá e, secundariamente, a existência de um corredor de penetração de migrantes nos Estados Unidos. O governo panamenho se curvou, abrindo mão da soberania do país. Está completamente claro que a guerra comercial dos Estados Unidos no solo latino-americano vem acompanhada da militarização.
O Brasil não tem dado motivo para uma movimentação militar como a que vem sofrendo a Venezuela. No entanto, não deixa de ser parte do problema. É evidente que Trump tem por objetivo mudar o governo do Brasil. A via para alcançar essa meta continua sendo a das eleições. No âmbito da guerra comercial, a Casa Branca lançou ataques ao Estado brasileiro, acusando o Supremo Tribunal Federal de perseguir politicamente o ex-presidente Bolsonaro e seus aliados processados pelo envolvimento na tentativa de golpe de Estado. A direita, galgada nos governadores de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Paraná, cujo parentesco com a ultradireita bolsonarista é inconfundível, vem se apoiando na guerra comercial dos Estados Unidos para dirigir um polo da burguesia brasileira que está pela capitulação do Brasil.
A impotência do governo Lula em realizar de fato a defesa da soberania nacional é um fator favorável aos trumpistas brasileiros. A perspectiva é de que a crise econômica vai se agravar, aumentando a arregimentação da população por detrás da fração burguesa direitista e ultradireitista. Bolsonaro vai ser condenado, mas poderá se livrar da prisão no caso de um de seus acólitos ser eleito.
Tudo indica que não é mera coincidência o lançamento da operação policial contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), em uma demonstração de que o governo Lula não está passivo diante dos cartéis da droga. Somente o PCC movimentou em quatro anos R$ 52 bilhões. Soma essa que por si só indica o quanto o crime organizado penetrou em todas as esferas da economia e da vida social. Trata-se de um fenômeno antigo do capitalismo e que nas condições de sua desintegração emergem forças capazes de criar um mercado mundial bilionário de drogas. O flagelo dos entorpecentes, na realidade, é tão somente uma das faces terríveis da barbárie capitalista. É necessário denunciar e rechaçar a sua utilização pelo governo norte-americano para impulsionar a guerra comercial com a China e o intervencionismo militar na América Latina.
Nos marcos do conflito do Brasil com os Estados Unidos, veio à tona um dos problemas mais candentes, que é a disputa pelas fontes de matérias-primas. O Brasil está de posse de uma vasta riqueza de recursos naturais. Tudo indica que as reservas de lítio, níquel, cobre e as chamadas terras raras estão no centro da disputa dos Estados Unidos com a China. A questão da soberania nacional se tornará ainda mais aguda na medida em que a burguesia e o Estado brasileiro tenham de acatar as ordens de Trump e das multinacionais.
A defesa da Venezuela contra o cerco norte-americano faz parte da luta mais geral pela soberania dos países semicoloniais da América Latina. A história tem demonstrado que as burguesias nacionais são incapazes de reagir à opressão imperialista. Nesse quadro, se processa as crises políticas nos países latino-americanos, cujas particularidades não devem ser utilizadas para ocultar o caráter geral da desintegração capitalista no continente saqueado pelas potências.
Na situação presente, emerge a guerra comercial dos Estados Unidos com a China. O Brasil é um dos países latino-americanos que se acha no centro da turbulência mundial. Eis por que o governo Lula tem sido atacado diuturnamente por suas declarações de condenação do genocídio na Faixa de Gaza e defender o fim da guerra na Ucrânia. Os acontecimentos põem às claras que a velha orientação de exercer uma diplomacia “pragmática” e “neutra”, permanecendo no meio das forças que polarizam, é uma ficção que se esvai nas condições de desintegração mundial do capitalismo, de guerra comercial e escalada bélica.
O Brasil se incorporou ao BRICS não simplesmente porque em seu governo está um representante do nacionalismo burguês. Mas sim, porque a ascensão econômica da China, impulsionada pelo processo de restauração capitalista, envolveu e continua envolvendo a economia brasileira. A ofensiva dos Estados Unidos na América Latina lembra a doutrina Monroe de 1823 em que o imperialismo decretou que o continente deveria estar sob a sua hegemonia.
Há muito, a bandeira de independência e soberania nacionais dos países latino-americanos passou para as mãos da classe operária e da maioria oprimida. As experiências do nacionalismo burguês e pequeno-burguês mostram sua caducidade diante da monumental tarefa de emancipar as nações oprimidas da dominação norte-americana e demais potências. A defesa da Venezuela depende inteiramente da luta do povo venezuelano e da unidade anti-imperialista da classe operária latino-americana.
Um passo que Trump der para esmagar a soberania da Venezuela servirá para impor as condições de sua guerra comercial e escalada militar aos demais países do continente.
A defesa da soberania nacional passou para as mãos da classe operária e da maioria oprimida, devido a que a única via para vencer as forças do imperialismo e da reação interna aos países latino-americanos é a da revolução social. A união dos explorados em defesa da soberania nacional implica que a direção revolucionária organize a frente única anti-imperialista. Essa é a tática para desenvolver e amadurecer a estratégia da revolução social, que por seu conteúdo de classe é proletária.