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06 out 2025
Editorial do jornal Massas nº 749
Sobre o reconhecimento do Estado palestino
Por uma República Socialista da Palestina
O pronunciamento de Macron na Assembleia da ONU exortando um acordo de paz na Faixa de Gaza e pedindo o reconhecimento do Estado palestino teve uma grande repercussão. A França expressou a voz de países europeus como o Reino Unido e Espanha, bem como a do Canadá, da Noruega. A imensa maioria dos estados-membros está pelo fim do massacre perpetrado pelo Estado de Israel contra os palestinos.
De fato, os Estados Unidos e Israel são as forças que sustentam o objetivo de anexar a Faixa de Gaza. O imperialismo norte-americano dá as ordens ao governo israelense. No Conselho de Segurança da ONU, somente os Estados Unidos estão franca e abertamente pela continuidade da invasão e posse territorial. Está claríssimo que são o pilar central da ofensiva contra o povo palestino, do expansionismo e do genocídio.
Diante desse acontecimento extremo, depois de tantos conflitos que sempre levaram a massacres dos palestinos, desde antes da criação do Estado de Israel em 1948, não há como ocultar que a burguesia sionista criou um enclave do imperialismo norte-americano na Palestina e no Oriente Médio. Desde a década de 1920, sob o Mandato inglês, se impulsionou a ocupação forânea de judeus do território palestino, cujas ações políticas e militares sempre concluíram no sentido de negar os palestinos como uma nacionalidade. Embora sem ter constituído um Estado, ocupam um território como nacionalidade.
A divisão e partilha do Oriente Médio após o fim do Império Otomano, na Primeira Guerra Mundial, manteve a Palestina à mercê do imperialismo inglês, que contou com apoio do francês, aliado na substituição do poder turco-otomano. Desde a decisão da Inglaterra em 1917 de facultar ao movimento sionista a colonização da Palestina, esteve claro que tal obra somente seria construída por meio da dominação econômica e da violência policial-militar.
O atraso das forças produtivas do povo palestino, no momento em que o capitalismo se encontrava no auge de seu desenvolvimento e se havia firmado como fase última que é o imperialismo, não lhe permitiu constituir um Estado. O povo judeu, por sua vez, disperso e isolado pela diáspora histórica, não poderia alcançar um Estado na época do capitalismo imperialista em que há muito havia se esgotado o processo de formação dos Estados nacionais e a guerra imperialista se realizava pela partilha do mundo segundo as forças econômicas dominantes.
Não é preciso descrever o quanto o povo judeu sofreu no processo da diáspora, cuja síntese se encontra no Holocausto, no antissemitismo nazista. As naturais e justas aspirações do povo judeu de não se dissolver em meio ao capitalismo em decomposição não poderiam ser alcançadas pelo nacionalismo sionista, que se forjou no final do século XIX, ou seja, quando o capitalismo havia entrado na fase imperialista.
A via histórica da conservação das milenares conquistas culturais e sociais, cujas contribuições civilizatórias são de extraordinária importância, foi aberta pelo movimento socialista revolucionário. Evidentemente, estava e está na contramão dos interesses dos judeus que fazem parte da burguesia, influenciam os governos capitalistas e contribuem para a conservação do imperialismo.
O quadro dantesco de demolição das cidades na Faixa de Gaza, de milhares de corpos que se acham sob os escombros, de mais de 65 mil mortos atingidos pelas bombas e pela fome, de milhares de palestinos descolocados e desalojados, de transformação do território em um campo de concentração, de conjunto, traz à tona o longo percurso de violência colonialista praticada pelo Estado sionista. É nesse terreno que foi negado ao povo palestino constituir seu Estado.
O sionistas ou pró-sionistas recorrem ao argumento de que os responsáveis são os próprios palestinos que “rejeitaram a partilha da ONU”, ou que “não aceitaram reconhecer o Estado de Israel em 1967”, ou, então, que “não aceitaram os termos do acordo de Camp David, em 2000” etc. Ocultam que Israel minou os acordos de Oslo de 1993 que previa um Estado palestino e demonstrou cabalmente que seu objetivo era o de controlar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia pelo uso da força econômica e militar.
Eis por que a declaração de Macron pelo reconhecimento do Estado palestino não passa de uma manobra verbal. O imperialismo está comprometido historicam
ente com os massacres do povo palestino, para criar e sustentar o Estado sionista. O representante francês apresentou para tal reconhecimento a condição de marginalizar e impedir que o Hamas faça parte de qualquer acordo. Lula fez veemente discurso pelo fim do massacre, mas o introduziu condenando o Hamas como grupo terrorista.
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que foi impedido pelos Estados Unidos de comparecer à Assembleia da ONU, por meio de videoconferência, afirmou que a Autoridade Palestina está preparada para negociar com os Estados Unidos (Trump), França e Arábia Saudita uma via de solução em que o Hamas e outras organizações da resistência deponham as armas. Pouco depois, Trump respondeu à imprensa que não irá “permitir que Israel anexe a Cisjordânia”. A Faixa de Gaza, sim, poderá ser anexada.
Aos olhos dos explorados e oprimidos em todo o mundo, a barbárie sionista impetrada na Faixa de Gaza é rechaçada. Já não tem nenhum apelo responsabilizar o Hamas. Israel tem de parar a matança e retirar imediatamente suas forças militares da Faixa de Gaza. No transcurso da guerra de intervenção, inúmeras manifestações em vários países levantaram a bandeira do fim do genocídio e direito dos palestinos à autodeterminação.
No momento em que se realizava a Assembleia da ONU, os trabalhadores italianos protestaram com um dia de greve geral. Nos Estados Unidos, as manifestações em frente à ONU reforçaram o sentido da greve na Itália. No dia 27, cerca de cem mil manifestantes alemães protestaram em Berlin. Em Israel uma nova manifestação contra o governo de Netanyahu exigiu o fim da intervenção na Faixa de Gaza. Netanyahu discursou em um plenário esvaziado pela maioria dos países em claro repúdio ao genocídio. Trump cancelou o visto de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, por ter participado em um ato popular nas imediações da ONU. Está claríssimo o crescente isolamento dos Estados Unidos e de Israel.
A dimensão da crise no Oriente Médio exige um levante das massas. Não haverá nenhuma solução favorável ao povo palestino, negociada pelo imperialismo. A posição da Autoridade Palestina reflete o curso da traição gestada no próprio seio dos palestinos.
É dramática a crise de direção mundial, que vem impedindo a classe operária de se elevar como força motriz dos combates anti-imperialistas e anti-capitalistas. Mas, objetivamente, em meio às catástrofes capitalistas emerge o programa da revolução social. É por esse norte que a vanguarda com consciência de classe deve se guiar.
A defesa da preservação do povo palestino terá muitas etapas, como as que ocorreram desde 1920 e 1948. Desta vez, cresce a compreensão de que a derrocada do colonialismo sionista e do imperialismo virá da luta estratégica pelos Estados Unidos Socialistas do Oriente Médio. Não haverá dois Estados na Palestina. A solução histórica se concentra na tarefa de palestinos, judeus e outras nacionalidades oprimidas conquistarem uma República Socialista da Palestina.