-
25 out 2025
Editorial do jornal Massas nº 750
Em defesa da resistência palestin contra o colonialismo sionista-imperialista
A paz do cemitério serve à dominação norte-americana do Oriente Médio
A classe operária e os demais explorados devem rejeitar a liquidação do Hamas pelas forças dos Estados Unidos e de Israel
Está posta a tarefa de construir o partido revolucionário no seio do movimento de resistência palestina e do proletariado nos países do Oriente Médio
A imposição da paz do cemitério não faz senão fortalecer a necessidade da luta dos oprimidos sob o programa da revolução social
A aprovação pelo Hamas e pelo governo de Israel da troca de reféns judeus e prisioneiros palestinos foi anunciada como um acordo que poderá abrir caminho para pôr fim à intervenção militar israelense na Faixa de Gaza e, assim, parar com a carnificina de civis palestinos. Por enquanto, o entusiasmo propagandeado pela imprensa manifestado entre os israelenses e palestinos se limita ao primeiro ponto das vinte condições ditadas por Trump e Netanyahu, no dia 29 de setembro, por ocasião da reunião da ONU.
Dentre as condições, a mais importante e decisiva é a de desarmar o Hamas e expulsar seus combatentes. Essa medida, se alcançada, quebrará a força de resistência dos palestinos que, desde a Faixa de Gaza, protagonizam o combate contra a anexação territorial e por sua autodeterminação.
Completado pouco mais de um ano da intervenção sionista, em 15 de janeiro de 2025, se firmou um acordo de três fases, sendo a primeira delas a troca de reféns e prisioneiros. Assim que foi cumprida a troca parcial, Israel rompeu o acordo no momento de se iniciar a segunda fase, em 19 de março. Ou seja, voltaram os bombardeios e a ofensiva terrestre com o objetivo de destruir o Hamas e anexar a região. Em seguida à trégua de dois meses, recrudesceram as ações militares, o cerco à “ajuda humanitária” e o uso da fome como arma de guerra. O Estado sionista explicitou ainda mais o objetivo de liquidar a resistência armada do Hamas e outras organizações jihadistas para ocupar integralmente a Faixa de Gaza e anexá-la.
Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos em 20 de janeiro e passou a administrar as mãos de sangue do governo de Netanyahu. Rompida a trégua, o imperialismo norte-americano pôs de lado a demagogia de Biden sobre os dois Estados e indicou que a solução para o conflito de Israel com os palestinos, depois de 77 anos de constituição do Estado israelense, era a de submeter completamente a Faixa de Gaza e reconstruí-la sobre a base do controle sionista. Havia, portanto, de destruir a capacidade de resistência armada oferecida pelo Hamas.
A Casa Branca e o Pentágono decidiram bombardear o Irã, o que ficou assentado como a “guerra de doze dias”. Assim se passou na situação em que a ofensiva de Israel no Líbano e Síria resultava em vitória dos sionistas diante da resistência em favor dos palestinos no âmbito do Oriente Médio. Os países árabes do Golfo Pérsico colaboraram para que o objetivo estratégico dos Estados Unidos se impusesse. Enfraquecida a resistência do Irã, da Síria, do Iêmen e, particularmente, do Hezbollah no Líbano, as Forças de Defesa de Israel puderam se concentrar na operação militar de arrasar a Faixa de Gaza e fulminar o Hamas.
Certamente, o governo norte-americano chegou à conclusão que Israel não teria como ir até o final na meta de liquidar o Hamas e teria de não só prolongar a invasão como ampliar a carnificina. Não foi mera coincidência que Trump e Netanyahu negociassem o plano de 20 pontos, justamente quando o novo ascenso de massa em defesa do povo palestino se dava na Europa e em outras partes do mundo. A bandeira contra o genocídio empunhada nas manifestações pressionou a União Europeia e, em particular, a governos como o da França, Espanha e Reino Unido, principalmente. Os governos francamente pró-sionista da Itália e da Alemanha se viram diante de contestações de suas condutas políticas, que comprometiam os países perante o genocídio. Eis por que Macron, da França, foi destacado a fazer um pronunciamento na ONU em favor do reconhecimento do Estado palestino.
O isolamento dos Estados Unidos e Israel chegou ao auge na condição em que a continuidade do esmagamento da Faixa de Gaza não mais podia ocorrer sob os olhos das massas árabes do Oriente Médio, sem que suas monarquias não mais tivessem como justificar o colaboracionismo com Estado de Israel, sob o auspício dos Estados Unidos, que necessitam retomar o Acordo de Abraão, que perfila as frações burguesas árabes por detrás da confrontação dos Estados Unidos com a China, Rússia e Irã. No interior dos próprios Estados Unidos, vinha crescendo o repúdio ao apoio de Trump a Netanyahu, inclusive, entre os eleitores que deram vitória ao Partido Republicano. A retirada da maior parte dos representantes dos estados-membros do salão da ONU no momento do discurso de Netanyahu retratou o aumento do isolamento do Estado sionista. A máquina de propaganda de Israel e suas comunidades burguesas em todo o mundo já não podia sustentar a farsa de que condenar o genocídio seria atos de antissemitismo.
Está claro que Trump tirou da gaveta o plano da paz do cemitério, considerando que a Faixa de Gaza não cairia imediatamente, o Hamas, mesmo debilitado, ainda oferecia resistência, os Estados árabes se achavam assombrados com a militarização sionista, o movimento mundial se reerguia e o isolamento de Israel era irreversível. O ataque sionista no Catar, tendo como alvo dirigentes do Hamas, provocou uma mobilização entre os governos árabes. O que obrigou Trump a negar seu conhecimento e fazer com que Netanyahu se desculpasse.
Esse conjunto de fatores se movimentava e se movimenta nos marcos da crise mundial do capitalismo, agravada com a continuidade da guerra na Ucrânia, os choques econômicos e políticos provocados pela guerra comercial e o impulso à escalada bélica. O fracasso de Trump de ditar uma “paz” por cima da Rússia e da Ucrânia, sem dúvida, pesou muitíssimo na decisão dos Estados Unidos de apresentarem a paz do cemitério aos palestinos. Não se sabe, porém, se Trump conseguirá ir adiante com as demais fases que se seguem à troca de reféns e prisioneiros. Israel conta com o desacordo do Hamas em se desarmar. O que presumivelmente seria motivo para ir adiante no fundamental que é anexar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.
Se é certo que o Hamas perdeu capacidade militar, também é certo que conta com o heroísmo da resistência da população golpeada e com o receio dos próprios países do Golfo Pérsico diante do expansionismo israelense. A possibilidade de ocorrer algo semelhante com o que se passou no acordo de janeiro de 2025 não deve ser desconsiderada. Muito se vem especulando sobre o destino da Faixa de Gaza.
O fundamental para a classe operária, os demais trabalhadores e a sua vanguarda com consciência de classe está em reagir contra as ilusões de que os Estados Unidos e Israel estabeleceram um curso de pacificação e coexistência entre judeus e palestinos. Ao contrário, o plano de Trump é de quebra da resistência da nação oprimida e subordinação por meio da força dos palestinos ao Estado sionista.
A vanguarda com consciência de classe tem o dever de defender a continuidade da resistência, da qual faz parte o Hamas e outras organizações islâmicas, de combater o plano de paz do cemitério e de manter a mobilização das massas que conseguiram impor o isolamento mundial dos Estados Unidos e Israel.
É fundamental sustentar no alto as bandeiras: retirada imediata de Israel da Faixa de Gaza, fim do genocídio e autodeterminação do povo palestino. Essas bandeiras estão em completa oposição ao plano de Trump e Netanyahu. Devem ser mantidas como base das mobilizações e da constituição da frente única anti-imperialista. Essa via de unificação dos explorados em todo o mundo, se mantida, garantirá a luta pela vitória da nação oprimida contra o Estado sionista e o imperialismo. É imperativo continuar a resistência até a vitória, porque dela emana o principal objetivo histórico, que é o da constituição de uma República Socialista da Palestina, como parte dos Estados Unidos Socialistas do Oriente Médio.