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28 nov 2025
Editorial do jornal Massas nº 753
As tarefas da vanguarda com consciência de classe
Persiste e aumenta a instabilidade mundial marcada pelos quase quatro anos de guerra na Ucrânia, pelos dois anos de genocídio dos palestinos na Faixa de Gaza e de violentos conflitos na África, cujo ponto alto tem sido a guerra civil no Sudão. No continente europeu, a notícia mais sintomática da instabilidade política é a do objetivo de se criar uma “área e mobilidade militar a nível da UE até 2027”, cujo centro de atenção é o da confrontação com a Rússia. Na Ásia, o novo governo japonês, da primeira-ministra Sanae Takaichi, dá continuidade ao rearmamento do país e se declara disposta a enfrentar a China no caso desta atacar Taiwan, de forma que se colocou como porta-voz dos Estados Unidos na região. Na América Latina, destaca-se a ofensiva militar do imperialismo norte-americano contra a Venezuela e Colômbia.
De conjunto, a escalada militar e as guerras são expressões das contradições e decomposição da economia mundial. A maior potência, os Estados Unidos, estabeleceu, sob o governo Trump, um plano geral de defesa de seus interesses mundiais afetados pelo declínio da economia norte-americana. Quanto à América Latina, a estratégia se concentra em amplas ações para obstaculizar e deter a penetração dos capitais chineses. Certamente, trata-se de uma estratégia geral, mas que se concretiza nas particularidades das relações existentes em cada região do mundo.
O cerco à Venezuela e Colômbia indica a confrontação com os obstáculos mais imediatos à dominação norte-americana. Obstáculos existentes no terreno das relações capitalistas de produção e comércio. Tornou-se cada vez mais intolerável a existência de governos nacionalistas, ainda que não ofereçam perigo à ascendência dos Estados Unidos. O conflito que se estende desde a implantação do regime chavista na Venezuela se potenciou no último período com a integração de países latino-americanos com a China, por meio do comércio e dos investimentos. As nações cujas economias nacionais se encontram mais profundamente entrelaçadas com a economia mundial são as que padecem com a guerra comercial dos Estados Unidos com a China. Está aí por que vem se projetando os atritos da potência norte-americana com o México e o Brasil. A Argentina não está isenta desse embate, que não aparece tão abertamente devido ao alinhamento do governo Milei com os ditames de Trump.
É visível o motivo pelo qual a maior parte dos países europeus e grande número de países latino-americanos esvaziaram a recente 4ª Cúpula Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) – União Europeia. Nenhuma medida concreta poderia ser tomada contra o cerco militar pelos Estados Unidos à Venezuela e Colômbia e aos bombardeios a embarcações no Mar do Caribe e Pacífico, em nome da “guerra ao narcoterrorismo”. As condenações verbais não passaram de demagogia para acobertar o servilismo histórico dos governantes e das burguesias nacionais aos Estados Unidos. Não foram capazes sequer de reagir à reativação de bases militares norte-americanas em Porto Rico e no Equador. Os representantes do imperialismo europeu conseguiram obter uma posição pró-imperialista e pró-OTAN à guerra na Ucrânia, contado apenas coma rejeição da Venezuela e Nicarágua.
Trump tem sido explícito na exposição da intenção dos Estados Unidos de derrubarem o governo de Maduro e enfraquecerem o governo de Pietro. Vêm impondo um alinhamento por meio de governos vassalos do Equador, Peru, El Salvador, Costa Rica e, entre outros, sobretudo da Argentina. Conta agora com a passibilidade de incorporar o novo governo ultradireitista da Bolívia. Impulsiona a oposição de direita e ultradireita ao governo Lula, apesar de seu pseudo nacional-reformismo.
A falência do governo Boric no Chile e a retomada de terreno político pela ultradireita e direita que disputará o segundo turno com a candidata do Partido Comunista, Jeannette Jara, favorecem a estratégia trumpista de um alinhamento a anti-China. Aguarda-se com expectativa a decisão de segundo turno em 14 de dezembro. Nenhuma das variantes é capaz de conter as tendências desintegradoras da crise econômica e da instabilidade política, marcada pelas divisões interburguesas e pela pressão dos explorados que tendem a retomar o campo das mobilizações coletivas.
A surpresa maior foi a fragorosa derrota do governo do Equador, Daniel Noboa, no referendo que tinha por meta autorizar a substituição da Constituição por meio de uma Constituinte e reinstalar bases militares norte-americanas, proibidas desde 2008. Em setembro e outubro, ergueu-se um movimento de massa contra a eliminação do subsídio ao diesel, a alta do custo de vida, a brutal repressão e o esmagamento dos direitos democráticos da população trabalhadora. Este à frente das mobilizações a Comunidade das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie). Tudo indica que a ação direta das massas influenciou o referendo como uma forma de condenar o governo antinacional e antipopular, capacho do imperialismo norte-americano. A resistência dos explorados equatorianos indica o caminho da luta dos oprimidos latino-americanos.
A manifestação de jovens mexicanos no dia 15 de novembro, embora motivada por descontentamento generalizado, se chocou com o governo de Claudia Sheinbaum. A dureza da repressão mostra que se trata de um governo incapaz de dar resposta à gigantesca pobreza da maioria oprimida e reagir aos ataques de Trump.
Na contramão da mobilização no Equador, na Colômbia as Forças Armadas desfecharam uma operação a organizações que derivaram das Forças Armadas da Colômbia (FARC) e do Exército de Libertação Nacional (ELN), matando 28 guerrilheiros.
Os Estados Unidos necessitam concentrar a guerra comercial contra a China. Várias frentes de conflitos levam à dispersão de forças. Nesse campo amplo, destacam a continuidade da guerra na Ucrânia e a dificuldade da impor a paz dos cemitérios na Faixa de Gaza. A retomada da proposta de discussão do plano de paz para a Ucrânia causa desconfiança, devido ao fracasso da tentativa inicial. A resistência da União Europeia alimenta a indisposição do governo de Zelensky de negociar sobre a base dos pontos que favorecem a Rússia. Logo mais veremos se Trump aumentará a pressão norte-americana para que dessa vez avancem as tratativas.
O Conselho de Segurança da ONU decidiu a favor da paz de cemitério de Trump para a Faixa de Gaza. As abstenções da Rússia e China permitiram sua vigência. Aprovou-se a constituição de um “Conselho de Paz”, com a participação dos Estados-membros. A posição norte-americana foi a de que essa resolução poderia garantir o acordo de 9 de outubro. O fato é que Israel não pretende abrir mão da anexação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. Suas forças Armadas continuam a provocar mortes massivas.
O mais provável é que a instabilidade e as tendências ao confronto se mantenham. A América Latina continuará fazendo parte e refletindo o processo de desintegração do capitalismo. A visão ampla sobre as tendências das guerras comercial e bélica permite à vanguarda com consciência de classe se orientar politicamente e agir em favor da luta de classes encarnada pelo proletariado e pela maioria oprimida. O descontentamento, o instinto de revolta e as mobilizações que ocorrem em toda a parte se dirigem à revolução social. Não é ainda perceptível a relação entre a polarização dos explorados contraposta à classe capitalista, bem como das nações oprimidas às potências imperialistas, e a revolução social. A luta pelo poder e pela transformação da propriedade privada dos meios de produção em propriedade social depende da classe operária ser dirigida por seu partido revolucionário. Sem que se independize da política burguesa, as massas permanecem na luta pelas necessidades imediatas.
Nas condições de agravamento da crise mundial, como aqui vem se desenvolvendo, sobressaem as necessidades básicas de defesa dos empregos, salários e direitos trabalhistas e políticos. Sobressaem também a rejeição à opressão nacional sofrida pelos países de economia atrasada e saqueados pelo capital imperialista. Mas, no plano geral da desintegração do capitalismo, emerge o programa da revolução social. Cabe à vanguarda com consciência de classe dirigir as lutas e conduzi-las a partir das reivindicações mais sentidas das massas à estratégia das transformações socialistas.
A parte do programa de reivindicação de defesa da vida dos explorados se dirige diretamente à classe capitalista e ao Estado burguês de cada país. A parte do programa da defesa da soberania e independência das nações oprimidas se dirige diretamente aos Estados imperialistas. A tarefa da vanguarda com consciência de classe é evidenciar na luta de classes a unidade indissolúvel entre a parte do programa vital das massas com o programa anti-imperialista, e a unidade indissolúvel como programa da revolução social. Assim, os explorados enfrentarão a ditadura de classe da burguesia com a estratégia da ditadura do proletariado. A tática da frente única anti-imperialista corresponde à luta contra a opressão nacional e a tática de frente única operária corresponde à unidade dos explorados contra a classe capitalista. A vanguarda com consciência de classe está obrigada a trabalhar sempre e em todas as circunstâncias pela unidade dos explorados contra a burguesia, seu Estado e o imperialismo.
Não há dúvida de que o proletariado se encontra em grande medida desorganizado e imobilizados pelas direções sindicais burocráticas e pela política burguesa. Essa situação mostra a importância decisiva de reconhecer a crise de direção e trabalhar por sua superação construindo os partidos revolucionários e reconstruindo o Partido Mundial da Revolução Socialista.