• 15 jan 2026

    Não à intervenção dos Estados Unidos e Israel no Irã!

Declaração do Comitê de Enlace pela Reconstrução da IV Internacional (CERQUI)

Diante da sangrenta repressão do governo iraniano aos protestos das últimas semanas, é necessário que a classe operária se torne a classe dirigente da nação oprimida, com uma política claramente anti-imperialista e anticapitalista.

Não à intervenção dos Estados Unidos e Israel no Irã!

Pela autodeterminação do povo iraniano. Basta de sanções e bloqueios!

Fim dos massacres!

A onda de protestos contra o aiatolá Khamenei começou a tomar conta do Irã em 28 de dezembro, com uma greve de lojistas em Teerã, desencadeada por uma crise monetária e um colapso econômico, que desde então se transformou em crise profunda. Os protestos contra a desvalorização da moeda e a disparada dos preços se espalharam por cidades de todo o país. As mobilizações antigovernamentais chegaram ao setor petrolífero iraniano, com trabalhadores de um importante complexo de refino e petroquímica entrando em greve.

A queda do valor da moeda rial em nível histórico exacerbou a crise econômica decorrente de severas sanções internacionais. Talvez o Irã esteja diante da mais profunda crise das últimas décadas. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, tentou apaziguar os manifestantes prometendo revisar os aumentos de impostos planejados e qualificando de legítimas as reivindicações.

O Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, sobreviveu a várias ondas de protestos, e esta é a quinta grande revolta desde 2009. A anterior, em 2022, também foi significativa. Os distúrbios na República Islâmica continua sem liderança e desorganizados.

Incapaz de conter os manifestantes com recursos econômico-financeiros limitados, a República Islâmica matou centenas e centenas. Ainda não se tem números precisos e confiáveis. Informações da ONG Iran Human Rights de 14 de janeiro referem-se a 3.379 manifestantes assassinados.

O governo interrompeu o acesso à internet. Até mesmo as ligações telefônicas tradicionais do exterior estão indisponíveis. O apagão não está afetando apenas os manifestantes, mas também causando um grande impacto na economia iraniana. O fato de já durar mais de 72 horas é um sinal do desespero do regime. A desinformação tem prevalecido, mas não se tem podido ocultar hospitais repletos de vítimas de disparos e cadáveres amontoados nos necrotérios.

Não há dúvida de que existem infiltrados e provocadores alimentando os confrontos. Mas, o fundamental é de que se trata de uma potente resposta popular à crise econômica que é descarregada sobre a população. As opções do regime iraniano estão se findando.

A República Islâmica é produto da revolução de 1979 que derrubou o regime do Xá da Pérsia, um fantoche colonial dos EUA na região e um de seus aliados mais leais. Os Estados Unidos e o Irã não mantêm relações diplomáticas formais desde que os EUA romperam os laços em 1980, após militantes estudantis iranianos tomarem a embaixada americana em Teerã e seus funcionários em novembro de 1979, desencadeando a crise dos reféns que durou 444 dias.

Trump ameaça intervir novamente no Irã. Ameaça os aiatolás, promete “resgatar” os manifestantes iranianos, afirma que “o fim da República Islâmica está próximo”, que “o Irã busca LIBERDADE, talvez como nunca antes”, “Os Estados Unidos estão prontos para ajudar!”, “estão prontos para intervir se o regime matar manifestantes”. “Se o fizerem, terão de pagar um preço muito alto”. Os Estados Unidos, ao encorajar a oposição, gostariam de reinstalar os descendentes da monarquia de Mohammad Rezā Shāh Pahlavi.

O Irã está diante do esgotamento do nacionalismo incapaz de impulsionar as forças produtivas e do regime político teocrático que vem sendo contestado por mobilizações, principalmente por uma camada da juventude e de mulheres. Dessa vez, o movimento foi desencadeado por comerciantes que têm sofrido com a debacle econômica. Evidentemente, enormes camadas da pequena burguesia não podem manter-se passiva, embora o país como um todo tenha conhecimento do cerco econômico imposto pelo imperialismo e sofrido bombardeios vinculados à intervenção do Estado sionista na Faixa de Gaza e ataques no Líbano, Síria e Iêmen.

Essa é uma contradição que somente a classe operária organizada e mobilizada sobre a base de um programa próprio pode responder. Sem uma estratégia de poder proletário, as camadas sociais que mais se ressentem da desintegração econômica acabam servindo aos objetivos dos Estados Unidos e de Israel. Essa é a tragédia iraniana que se expõe na brutal repressão desfechada pelo Estado burguês e na morte de milhares.

Trump e Netanyahu veem a possibilidade de recrudescer a ofensiva contra o governo nacionalista e preparar o caminho para derrubá-lo, substituindo-o por um governo serviçal. As vitórias de Israel e Estados Unidos no enfrentamento à resistência do Hamas na Faixa de Gaza e do Hezbollah no Líbano, bem como a queda de Bashar al Assad na Síria, resultaram no enfraquecimento do denominado “Eixo da Resistência”, do qual o Irã se constitui como a principal força econômica e militar.

O imperialismo e seus lacaios sionistas estão alimentando o levante justamente porque não está sob a direção da classe operária e de uma vanguarda que encarne o programa da revolução social. Caso contrário, estariam fazendo parte do massacre. A condenação de Trump ao governo iraniano por desfechar a sanguinária repressão tem por conteúdo o objetivo de se livrar do nacionalismo que ainda resiste à sujeição a que se submetem a imensa maioria dos países e dos governos do Oriente Médio. É fundamental compreender que a carnificina provocada pelo poder teocrático burguês favorece o fortalecimento do cerco imperialista ao Irã.

Qualquer forma de interferência dos EUA nos assuntos internos do Irã deve ser rejeitada. Seu objetivo não é defender os protestos ou as reivindicações populares; seu objetivo é eliminar o regime político que mais ferozmente lutou contra o Estado terrorista de Israel, a fim de garantir sua contínua expansão e domínio do Oriente Médio. Os EUA bombardearam diretamente as instalações nucleares há alguns meses em uma ação coordenada com Israel para impedir que o Irã exercesse seu direito de alcançar o pleno desenvolvimento nuclear. As forças do imperialismo e do sionismo também assassinaram lideranças proeminentes do governo.

A classe operária deve intervir com sua própria política, liderando a nação oprimida, defendendo incondicionalmente o direito do Irã à autodeterminação, defendendo o direito ao seu programa nuclear, organizando a economia de acordo com suas necessidades e rejeitando o bloqueio e as sanções impostas pelo imperialismo que estrangulam sua economia. O peso da crise deve recair sobre os capitalistas. Para isso, a vanguarda com consciência de classe, que se desperta em meio à comoção interna e convulsão externa, tem pela frente a tarefa de construir o partido revolucionário, ou seja, edificar o programa da revolução social.

Operários, camponeses e classe média arruinada:

Lutemos sob a bandeira de um governo operário e camponês, em defesa de um programa de reivindicações próprio e de combate ao imperialismo!

Lutemos pelo fim do massacre desfechado pela teocracia burguesa dos aiatolás com os métodos da luta de classes, da organização coletiva e da estratégia da revolução proletária!