• 23 jan 2026

    Editorial: Após a Segunda Guerra Mundial, está em curso a catástrofe dos choques entre potências

Editorial do jornal Massas nº 756

Emerge das condições objetivas o programa da revolução social

No interior da própria burguesia, está posta a discussão sobre os “riscos geoeconômicos”. Na reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos, o 1º ministro do Canadá, Mark Carney, declarou, em 20 de janeiro, – “Serei direto: estamos no meio de uma ruptura da ordem mundial, não de uma transição. (…) O fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade brutal, em que a geopolítica das grandes potências não está sujeita a nenhuma restrição. (…) Todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências, que a ordem baseada em regras está se esvaindo, que os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”. O presidente da França, Emmanuel Macron, se utilizou do termo “imperialismo” – “não é momento para imperialismos e colonialismos”. Afirmou que a União Europeia não deve se curvar à “lei do mais forte”.

Ambos pronunciamentos refletem o desespero e a impotência diante da ofensiva dos Estados Unidos com as armas da guerra comercial, do intervencionismo militar e dos objetivos explícitos de conquistar territórios por meio de anexações, ou de completa subordinação de países.

O Fórum Mundial Econômico em Davos se realizou após os Estados Unidos terem invadido a Venezuela, bombardeado a sua defesa, assassinado dezenas de soldados e sequestrado o presidente Nicolás Maduro. Essa ação foi antecedida por um poderoso cerco naval montado no Mar do Caribe. Todos assistiram e sabiam que Trump ordenaria a invasão da Venezuela, desconhecendo os ordenamentos estabelecidos pela ONU. Assistiram sem esboçarem qualquer reação contrária à prepotência do imperialismo norte-americano.

Depois dessa operação bem sucedida, Trump retomou a questão da Groelândia. Criou um alvoroço na União Europeia, que pôde medir com a métrica das intenções anexionistas dos Estados Unidos com os acontecimentos que atingiram a Venezuela e premiram a América Latina. A Casa Branca havia se dirigido à Dinamarca com uma proposta de compra, em uma mão, e com a ameaça de ocupação militar, em outra. Esse ultimato esteve presente em Davos, assombrando a União Europeia e a OTAN. O 1º ministro do Canadá se destacou pelo pronunciamento contundente, não só devido aos casos da Venezuela e Groelândia, mas também às intenções dos Estados Unidos de anexarem ou semi anexarem o Canadá e o México.

Trump aproveitou a reunião em Davos para lançar o seu “Conselho de Paz para Gaza”. Essa iniciativa contou com o apoio do Conselho de Segurança da ONU, que aprovou a diretriz da paz dos cemitérios ditada pelos Estados Unidos. Trump convocou inúmeros países, inclusive a Rússia, a participar de tal Conselho, que é claramente um instrumento de intervenção direta dos Estados Unidos na Faixa de Gaza e, portanto, em todo território palestino.

Participaram da cerimônia 24 países. Todos sem transcendência econômica e militar. As potências europeias não acataram o chamado. Da América Latina, compareceram o Paraguai e Argentina. Enquanto Trump montava o seu Conselho da Paz, Israel continuava a bombardear a Faixa de Gaza e a aumentar o número de palestinos mortos. A não ser que se iniciem as capitulações, pode-se dizer que foi um fracasso a reunião de lançamento do Conselho. A rejeição ou renúncia à participação teve como um dos argumentos significativos o de que Trump estava montando uma organização à margem da ONU e em oposição ao seu Conselho de Segurança. Essa iniciativa, de fato, vai além das decisões de Trump de romper o financiamento de organismos da ONU, entre eles a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Acordo de Paris sobre o Clima, sob a alegação de “deixaram de servir aos interesses americanos.”

Não há dúvida de que o próximo passo é o de submeter a Groelândia. Em sua manobra política, Trump ameaçou taxar os países que obstaculizassem a investida dos Estados Unidos pela anexação da ilha do Ártico. O susto das potências europeias levou a uma reação comercial prometendo anular o acordo tarifário que é favorável aos Estados Unidos e muito prejudicial à economia da União Europeia. Trump recuou, sem abandonar, no entanto, o campo político do objetivo anexionista. Passou-se a discutir a ampliação da presença militar dos Estados Unidos na Groelândia, tendo por base o “Pacto de Defesa de 1951”.

Há um acordo interimperialista de bloquear a presença da China e Rússia no Ártico. A alteração em tal pacto, se realizada, dará poderes militares aos Estados Unidos, que equivalem a uma semi anexação da Groelândia.

Um outro fator da crise mundial é o da guerra na Ucrânia. Esteve à margem da discussão em Davos, mas Trump e Zelensky aproveitaram para propagandear a ideia de que se acha em estágio avançado um documento para um acordo que será discutido nos Emirados Árabes em seguida à reunião de Davos.

Trump se vangloriou de ser um pacificador e que está corrigindo os rumos da Venezuela. Elogiou a disposição de “cooperação” do governo assumido por Delcy Rodríguez, que aceitou negociar o controle dos Estados Unidos sobre o petróleo venezuelano. Poucos dias antes do início da reunião de Davos, o diretor da Agência de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), John Ratcliffe, se reuniu com a presidente. Trump e seus assessores chegaram à conclusão de que a inclinação do núcleo governista interino a admitir a intervenção norte-americana e a se dispor a seguir as condições ditadas desde Washington é a melhor solução política no momento. O grupo de Delcy é o que tem mais meios para evitar uma comoção social e impedir que se abra um caminho à resistência anti-imperialista. Nos termos apresentados por Trump, evidencia-se o curso da capitulação e traição à bandeira de defesa da nação oprimida e autodeterminação da Venezuela.

Embora o governo iraniano tivesse esmagado o movimento de contestação à política econômica e ao regime ditatorial dos aiatolás, Trump avisou em Davos que havia autorizado o deslocamento do “porta-aviões USS Abraham Lincoln e sua frota de apoio para a região do Oriente Médio”, para “vigiar de perto” o Irã. Tudo indica que reforçará sua ação intervencionista, objetivando derrubar o governo iraniano. Uma das diretrizes do trumpismo é o de acabar com governos nacionalistas que levantem obstáculos ao controle de fontes de matérias-primas pelos Estados Unidos. A criação do “Conselho da Paz” para acabar com toda resistência dos palestinos faz parte da estratégia norte-americana de ampliar seu domínio no Oriente Médio.

A política estratégica de Trump, levada às últimas consequências, resultará em um choque frontal com a China, que vem avançando nas entranhas da economia mundial. As múltiplas ações dos Estados Unidos correspondem a uma preparação para uma guerra em grande escala. Essa via potenciará a crise política interna nos Estados Unidos, que, por enquanto, tem sido impulsionada principalmente pela repressão aos imigrantes. As contradições da economia norte-americana estão chegando a um ponto em que Trump age para derrubar o presidente do Banco Central.

A luta de classes nos Estados Unidos tende a confluir com a luta de classes mundial, que se desenvolve em toda parte, com particularidades que têm por base comum o choque entre as forças produtivas e as relações capitalistas de produção. Em meio a tantos conflitos simultâneos, cresce a polarização entre a riqueza concentrada e a pobreza disseminada. O esgotamento das relações econômicas e nacionais do pós-Segunda Guerra, o avanço da guerra comercial, a escalada das tendência bélicas e o impulso ao empobrecimento das massas põem à luz do dia a necessidade histórica da revolução social. A luta anti-imperialistas se funde com a anticapitalista. Essa é a base sobre a qual se coloca para a classe operária tomar a dianteira na organização da frente única anti-imperialista, da defesa das nações oprimidas e da derrocada do imperialismo pela via da revolução proletária.