• 09 fev 2026

    Editorial: Trump avança em seus objetivos mundiais

Editorial do jornal Massas nº 757

Acirram-se as contradições e mantem-se o curso da decomposição do capitalismo

Das condições objetivas, emerge o programa da revolução social

A situação mundial está marcada pelos objetivos da “Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos”. Para alcançá-los, se estabeleceu como diretriz a “paz através da força”. O fundamento da política imperialista do governo Trump é de que “a força é o melhor fator de dissuasão”. Na prática, “a paz por meio da força” tem significado e resultado em ameaças, cercos, operações e intervencionismo militares a países que resistem em se sujeitar aos interesses norte-americanos.

O acontecimento mais recente foi o do cerco, invasão e sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Um antecedente de grande importância ocorreu com o bombardeio aéreo ao Irã. Esses dois países – um da América Latina e outro do Oriente Médio – se destacam como redutos do nacionalismo típico de nações semicoloniais, que como tais vinham resistindo à “paz” imperialista. Ou seja, resistindo à desnacionalização dos recursos petrolíferos.

A invasão fácil e bem sucedida da Venezuela resultou em transformar a cúpula do governo nacional-reformista em fantoche. Ainda há, certamente, um percurso a ser vencido pela “paz por meio da força”, que é o de destroçar o regime nacionalista erguido por Hugo Chávez. As armas e as ameaças continuam apontadas ao governo interino de Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez.

O controle do petróleo venezuelano se tornou instrumento nas mãos de Trump para recrudescer o cerco a Cuba. O governo do México, por sua vez, se curvou diante da ordem da Casa Branca de também interromper o envio de petróleo à Ilha. O presidente Miguel Díaz-Canel denunciou o evidente objetivo de Trump de sufocar a economia cubana, e, ao mesmo tempo, levantou a bandeira de cooperar com os Estados Unidos, desde que se respeite a soberania do país.

Trump montou o mesmo cerco da Venezuela à Colômbia. Deixou claro que poderia ocorrer o mesmo que se passou com Maduro. O presidente Gustavo Petro se reuniu em Washington com o ditador mundial, oferecendo o tal do diálogo soberano. Logo em seguida, as Forças Armadas da Colômbia atacaram os guerrilheiros da ELN, assassinando cerca de 15 componentes. Petro procurou mostrar na prática que seu governo fará o que for possível para executar a diretriz de Trump que diz combater o narcoterrorismo. É bom lembrar que os Estados Unidos tiveram de retirar a denúncia de que Maduro fazia parte do Cartel de Los Soles. Sob a mesma justificativa da operação “Lança do Sul” de combater os cartéis narcoterroristas, os Estados Unidos enviaram navios de guerra ao Haiti. Trata-se de mais uma ação da reedição moderna da Doutrina Monroe.

O Irã acabou de contornar um levante popular que resultou em milhares de prisões e mortes. Esteve sob a ameaça de ataque militar pelos Estados Unidos. A derrota da insurgência não fez senão Trump ordenar o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln para as imediações do Irã, reproduzindo o que os Estados Unidos fizeram no Mar do Caribe.

Não é de todo absurda a probabilidade de novos ataques ao Irã, agora com o objetivo de assassinar a cúpula governamental dos aiatolás, a exemplo dos assassinatos de militares e comandantes da Guarda Revolucionária. O governo iraniano se diz disposto a negociar os termos de pacificação com os Estados Unidos. Não se sabe ainda até que ponto existe a possiblidade do Irã evitar o intervencionismo norte-americano.

A ocupação da Faixa de Gaza pelo Estado sionista de Israel continua a saga das matanças, após a paz dos cemitério ditada por Trump. O anúncio da constituição do “Conselho da Paz” propalado no Fórum Mundial de Davos, por enquanto se mantém como objetivo de Trump.

Os Estados Unidos voltaram a bombardear os nacionalistas do Estado Islâmico na Síria, indicando ao governo servil de Ahmed al-Sharaa, que derrubou o regime de Bahar al-Assad, que o imperialismo norte-americano exige do povo da Síria submissão. Os curdos sírios, que ajudaram os Estados Unidos a combater e destroçar o Estado Islâmico, integrando as “Forças Democráticas da Síria (SDF)”, acabam de sofrer um brutal ataque do governo Ahmed e de assinar um acordo de cessar-fogo, que inviabiliza a reivindicação de autonomia nacional. Trump usou os curdos e os abandonou diante do governo também opressor de Ahmed. Permanece a instabilidade no Oriente Médio e a ofensiva militarista dos Estados Unidos para se impor como poder incontestável na região.

A ameaça de anexação da Groenlândia permanece viva. Os Estados Unidos, nesse caso, têm de ser mais cautelosos, uma vez que atinge a Dinamarca e envolve a OTAN. A administração de Trump está segura de que uma ocupação militar não levaria a Europa a defender a ilha, recorrendo às armas. Ocorre que seria uma ruptura muito profunda com o velho continente. Os Estados Unidos precisam da aliança com o imperialismo europeu para uma futura confrontação com a China e Rússia. O essencial da questão reside no fato da necessidade imperiosa de impor amplos controles continentais e realizar anexações.

Trump deu também dois passos importantes em sua ofensiva na guerra comercial com a China. Reconciliou-se com o 1º Ministro da Índia, Narendra Modi, reduzindo o impacto das tarifas, tendo em contrapartida a interrupção da compra de petróleo da Rússia. Anunciou que selou um compromisso com o México, União Europeia e o Japão de garantia de acesso às terras raras – minerais críticos – de forma a não depender da China.

Acrescenta-se a esses acontecimentos, a indisposição de Trump de prorrogar por mais um ano o acordo de controle de armas nucleares (Novo Start). Tudo indica que o empenho dos Estados Unidos em impulsionar a escalada bélica implica fortalecer o armamento nuclear.

Internamente, agrava-se a crise política com a violência desfechada aos imigrantes. A resposta dos explorados aos assassinatos de Renée Good e Alex Pretti, em Minnesota, foi tão contundente que Trump se viu obrigado a recuar, pelo menos provisoriamente, na operação levada a cabo pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). A ameaça de intervenção militar no estado não demoveu as camadas oprimidas mais radicalizadas de protestarem por vários dias.

Trump não conseguiu se desfazer de seu vínculo com o empresário Jeffrey Epstein, que se valeu de suas riquezas e de suas relações com alta burguesia para montar uma rede de tráfico sexual. Esse escândalo expõe o grau de decomposição da burguesia norte-americana.

Os avanços militares, políticos e econômicos alcançados não reerguerão os Estados Unidos como a potência hegemônica que regeu o destino do mundo após a Segunda Guerra Mundial e, principalmente, depois da derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Estão servindo à potenciação da guerra comercial, à projeção do militarismo e à preparação de um confronto bélico com a China. As contradições que estão na base da economia norte-americana são expressões concentradas da decomposição mundial do capitalismo. A impossibilidade de impulsionar as forças produtivas abriga em suas entranhas a barbárie social.

A “Estratégia de Segurança Nacional” do governo Trump vem alcançando êxitos devido ao atraso da organização do proletariado e dos demais explorados, que se acham bloqueados pela política de colaboração de classes de suas direções. A resistência operária e popular, como a de Minnesota, vem ocorrendo nos países em que se manifestam as contradições do capitalismo em decomposição. A tendência geral é de polarização entre a riqueza concentrada e a pobreza disseminada. As bárbaras ações do imperialismo e de seus serviçais nos países semicoloniais fermentam e potenciam a luta de classes.

Está posto para o conjunto dos trabalhadores a luta contra a bárbara ofensiva dos Estados Unidos por meio de um movimento de massas anti-imperialista. Concretamente, a resposta proletária exige a constituição da frente única anti-imperialista. Resistir e derrotar as ações do imperialismo resultam no combate ao capitalismo em decomposição e na marcha da luta de classes em direção ao socialismo.

Trata-se da vanguarda com consciência de classe agir firme e concentradamente em torno do objetivo de superar a crise de direção, construindo os partidos revolucionários e reconstruindo o Partido Mundial da Revolução Socialista. Tomando como ponto de partida as reivindicações elementares, os explorados se chocam com as variadas políticas burguesas e caminham no sentido do combate ao domínio da burguesia e da opressão imperialista. Os êxitos provisórios de Trump se converterão em fracassos nas condições de elevação da luta de classes e emersão do programa da revolução social.