• 21 fev 2026

    Editorial: Quatro anos da guerra na Ucrânia – Quadro sombrio da crise mundial capitalista

Editorial do jornal Massas nº 758

Quatro anos da guerra na Ucrânia

Quadro sombrio da crise mundial capitalista

Não há outra via a não ser a da revolução social

O terceiro encontro, realizado em Genebra, no dia 17 de fevereiro, entre representantes russos e ucranianos, sob a “mediação” dos representantes norte-americanos, fracassou na tentativa de se chegar a um acordo de paz. Espera-se que seja melhor no quarto encontro previsto.

Embora a Ucrânia esteja acuada pela ofensiva das tropas de Putin, o governo Zelensky resiste em aceitar os termos de um acordo de 28 pontos lançado por Trump em novembro de 2025. Tudo indica que dois pontos interligados venham adiando uma solução para a guerra: 1) anexação integral da região de Donbas pela Rússia; 2) instalação de uma força militar “pacificadora”. De forma que a Ucrânia pretende continuar com sua linha de se vincular à União Europeia e à OTAN.

A Rússia pretende que o Estado ucraniano seja desarmado. Em outros termos, a Ucrânia ficaria neutralizada entre a União Europeia e a Rússia, que no fundo estão na base da guerra. Ficou mais do que claro que os Estados Unidos foram os principais agentes da confrontação, em aliança com a União Europeia. Fez parte das diretrizes do governo Joe Biden o objetivo de recrudescer o cerco à Rússia e de avançar sobre a área de influência russa na Eurásia. A perda de influência da Rússia sobre o Estado ucraniano desde a crise de 2014 estabeleceu o terreno da guerra como a via de proteção do Estado russo.

Os Estados Unidos não vacilaram em transformar a Ucrânia em bucha de canhão para avançar o expansionismo imperialista na Eurásia e sitiar a Rússia que havia chegado às últimas consequências na restauração capitalista, mantendo-se como uma potência regional militar e capacitada a exercer um poder econômico sobre as ex-repúblicas soviéticas que não caíram nas malhas da União Europeia e, portanto, da OTAN.

Kiev tem sustentado uma guerra tão longa, destrutiva e mertífera graças ao armamento e ao financiamento promovidos pelos Estados Unidos e seus aliados europeus. As sanções impostas pelos Estados Unidos à Rússia não foram capazes de debilitar Moscou ao ponto de Putin se dispor a acabar rapidamente com o conflito.

Trump mudou a diretriz norte-americana ao lançar um plano de paz e interrompendo a participação norte-americana na sustentação da resistência de Zelensky, mas não suspendeu o bloqueio econômico montado por Biden. Pôs às claras o interesse dos Estados Unidos em um acordo que lhes daria vantagens na partilha da Ucrânia. Condenou o governo dos democratas por dar início e alimentar a guerra e explicitou claramente que um acordo teria de resultar na devolução dos gastos do Tesouro norte-americano e na abertura de um caminho para os seus capitais na Eurásia. A indústria bélica dos Estados Unidos ganhou muito com a conflagração, mas, segundo Trump, o país não poderia continuar a despender recursos quando estava clara a derrota da Ucrânia e a indisposição de levar a OTAN à guerra com a Rússia.

Essa conclusão estratégica não se limita ao esforço de guerra despendido contra a Rússia por meio da Ucrânia. A força que mais se choca com os interesses internacionais da potência do norte é a da China. Trata-se, portanto, de redimensionar a diretriz dos Estados Unidos — como consta no documento “Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América” —, que devem se preparar para uma guerra contra a potência asiática, que vem se projetando mundialmente, alicerçada e alavancada no processo de restauração capitalista.

A persistência da Europa imperialista em prolongar a guerra deve-se ao fato de que não se pode colocar por trás dos Estados Unidos sacrificando seus interesses próprios, evidenciados no cerco da OTAN à Rússia e nas provocações que precipitaram a guerra em 24 de fevereiro de 2022. A conflagração, que colocou frente a frente a União Europeia e a Inglaterra com a Rússia, assinalou o esgotamento da ordem internacional do pós-guerra.

A derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi um dos acontecimentos mais importantes desse processo de desintegração do capitalismo mundial. Arrefeceu a Guerra Fria sem, contudo, eliminar suas raízes, que se encontram na contradição do capitalismo da época imperialista, em que as forças produtivas estão em choque frontal com as relações capitalistas de produção e com a divisão do mundo em Estados nacionais.

Nesse marco, a emersão da China como potência econômica alimentou tal contradição, levando os Estados Unidos a recrudescerem a guerra comercial e a impulsionarem as tendências bélicas que se encontravam adormecidas na Europa. É sintomático que se retome o curso da energia nuclear e das armas atômicas.

Esse quadro sombrio da crise mundial expõe a rota do intervencionismo imperialista chefiado pelos Estados Unidos e a possível colisão entre países que detêm poderosos complexos industriais-militares e armamento nuclear.

Depois de invadir o espaço aéreo da Venezuela e sequestrar o presidente Nicolás Maduro e impor suas condições ao governo interino de Dercy Rodriguéz, os Estados Unidos deslocaram sua força naval para montar o cerco ao Irã. Nesse exato momento, se discute se Trump fará o mesmo que fez com a Venezuela. Caso o regime dos aiatolás não se curve diante das exigências do imperialismo norte-americano e do sionismo colonialista de Israel, a possibilidade de um novo ataque está posta, apesar da capacidade de resistência dos iranianos ser muito superior à dos venezuelanos.

A paz dos cemitérios de Trump/Netanyahu na Faixa de Gaza não resultou em estabilização que possa estancar e retroceder a multiplicidade de conflitos que movimenta as relações entre países, etnias e divisões religiosas no Oriente Médio. A necessidade dos Estados Unidos e de Israel de destruir o regime e o governo nacionalista do Irã combina com as ações militares voltadas a submeter o governo pró-imperialista da Síria.

A farsa do Conselho de Paz montado por Trump não atraiu nenhum país de peso econômico e militar que pudesse dar fôlego ao objetivo de Trump de impor a paz dos cemitérios à custa da anexação do que resta do território palestino e da projeção do Estado sionista como força do colonialismo imperialista no Oriente Médio. No fundo, os Estados Unidos se impõem pela força das armas para conter a penetração da China na região e limitar a influência da Rússia.

A facilidade como Trump cercou a Venezuela pelo mar do Caribe e executou o sequestro de Maduro, bem como submeteu o que restou do governo chavista, abriu margem para o imperialismo norte-americano reunir aliados servis e tolher qualquer resistência de países que se sentem ameaçados pelas medidas de força dos Estados Unidos. Os mais importantes como o Brasil e México assistiram passivamente ao ataque à soberania da Venezuela. E a Argentina cumpriu o papel de vassalo.

O ditame de Trump para que a Venezuela interrompesse o envio de petróleo à Cuba foi acompanhado com ameaças ao México e ao Brasil, que poderiam substituir o petróleo venezuelano. Essa imposição recaiu sobre outros países fora da América Latina, como a Rússia, Irã, China etc. Os Estados Unidos criaram uma situação impar para submeter Cuba, afogando sua economia a um grau de asfixia até então nunca alcançado durante mais de seis décadas de cerco econômico e militar à ilha.

Essa condição ímpar caracteriza-se pela quebra dos movimentos nacionalistas, pela derrocada de governos nacional-reformistas e pelo fortalecimento das tendências pró-imperialistas gestadas no seio das burguesias nacionais. O fundamental, no entanto, está em que a classe operária, camponeses pobres e classe média urbana arruinada estiveram, em grande medida, subordinados ao nacional-reformismo e foram golpeados pela contrarrevolução nas situações de rebelião.

Cabe assinalar o quanto a contrarreforma trabalhista do governo Milei ganha terreno em função da quebra econômica do país e da via de maior subordinação às diretrizes de Trump. Quebra-se parte da indústria e descarrega-se a falência da classe burguesa argentina sobre a maioria oprimida. A resistência do proletariado e demais trabalhadores obrigou as direções sindicais a recorrerem à greve geral, sem, contudo, potenciarem o combate sobre a base de um programa e estratégia revolucionários. Acontecimento semelhante se passou nas recentes lutas, dirigidas pela Central Operária Boliviana (COB).

Esses embates contrastam com a inércia imperante na Venezuela. Os movimentos de resistência às contrarreformas antinacionais e antipopulares ocorrem de forma segmentada e isolada. O atraso em unificar os combates acaba por se refletir na resistência ainda embrionária diante dos ataques do imperialismo, do alinhamento de governos vassalos e da impotência dos governos que manifestam discordância com a ofensiva militar e anexionista dos Estados Unidos. É brutal o isolamento de Cuba e a agressão norte-americana para liquidar de vez as extraordinárias conquistas da revolução de 1959.

Está posto para a classe operária tomar a dianteira na constituição da frente única anti-imperialista. No entanto, ela se acha obstaculizada pela ausência de partidos revolucionários constituídos em seu seio e provados na luta de classes. O fato contundente de persistir a crise de direção não elimina o fato de emergir objetivamente, do capitalismo em desintegração, o programa da revolução social, que tem por essência derrubar a burguesia do poder, transformar a propriedade privada dos meios de produção em propriedade social, restabelecer a transição do capitalismo ao socialismo e superar a dominação imperialista de um punhado de nações sobre a imensa maioria.

É desse quadro sombrio da crise capitalista e da luta de classes que se coloca a tarefa histórica de reconstituir o Partido Mundial da Revolução Socialista, a IV Internacional.