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20 jun 2026
Editorial do jornal Massas nº 766
A cúpula doe G7 refletiu a profundidade e os impasses da crise mundial
A classe burguesa só tem a oferecer contrarreformas, guerras e destruição de forças produtivas
Os explorados do mundo inteiro vêm reagindo aos ataques dos capitalistas e dos seus governos
A vanguarda com consciência de classe luta contra o capitalismo em decomposição com o programa da revolução social
Organizar a frente única anti-imperialista em defesa das nações oprimidas
A reunião iniciada no dia 16 de junho ocorre na situação de prolongamento da guerra na Ucrânia, que entrou no quinto ano, de grande descontentamento com a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, de manutenção da ofensiva do Estado sionista de Israel aos palestinos e libaneses, de intervenção do imperialismo norte-americano na Venezuela, de cerco econômico-militar a Cuba e de levante dos oprimidos na Bolívia. Na base desses acontecimentos catastróficos, se encontra a potenciação da guerra comercial e a escalada bélica.
Os Estados Unidos, sob o governo Trump, ampliou e recrudesceu o intervencionismo estadunidense em todo o mundo. No centro dos conflitos, comparece a emersão da China como potência econômica. Desde os primeiros sinais dados pelo governo Obama, em 2017, de que os Estados Unidos ergueriam barreiras comerciais diante da China, que a guerra comercial iria se acirrar. O governo Trump daria continuidade a esse curso já em 2018. O governo de Joe Biden manteria a linha da confrontação. Mas é no mandato atual de Trump que o choque comercial com a China expôs mais abertamente a profundidade da crise mundial e as tendências desintegradoras da economia norte-americana.
A projeção da China está em franca contradição com a necessidade dos Estados Unidos estancarem a perda de mercados, o processo interno de desindustrialização, o agigantamento do parasitismo financeiro e as pressões do complexo militar. Desde a debacle de 2008-2009, o ritmo e a intensidade do esfacelamento das relações mundiais elevaram as disputas econômica, financeira e comercial a ascender a escalada bélica.
Os Estados e seus governantes descarregaram a crise sobre os trabalhadores em geral e as nações oprimidas em particular. O baixo crescimento econômico tendente à recessão, o aumento do desemprego, o rebaixamento salarial, a elevação do custo de vida e a brutal precarização das relações trabalhistas potenciaram a luta de classes. Observa-se a interdependência da guerra comercial com a escalada bélica, bem como o impulso do combate dos explorados em defesa de suas reivindicações e a necessidade das nações oprimidas erguerem a bandeira da soberania nacional. No momento, destacam-se os cinquenta dias de luta na Bolívia. Movimento esse que conflui com o descontentamento generalizado dos explorados e com a prepotência do imperialismo norte-americano em sua guerra comercial contra China, que arrasta a América Latina.
É nessa situação convulsiva que o G7 tratou de questões como a guerra contra o Irã, a guerra na Ucrânia, os desequilíbrios comerciais. Por sua abrangência, envolve todos os continentes. Os mais afetados no quadro da discussão são as regiões do Oriente Médio e da Europa, por exigirem respostas quanto à continuidade ou interrupção das guerras. Mas, ficou visível que no centro de todos os acontecimentos desintegradores das relações mundiais emerge o antagonismo dos Estados Unidos, em primeiro plano, e das potências europeias, em segundo, com a China.
Em meio aos ataques ao que se qualificou de “concorrência desleal em alguns setores” e ao excesso de capacidade industrial, os representantes da burguesia imperialista destacaram o objetivo de romper o controle da China sobre os minerais críticos. Caminharam no sentido de um alinhamento para unir forças na guerra comercial contra a China, de forma a garantir a segurança no abastecimento, a promover a estabilidade das cadeias produtivas, a diminuir a vulnerabilidade industrial e a impulsionar os investimentos conjuntos nas áreas de segurança nacional. Um aspecto particular diz respeito ao endividamento mundial e o risco que representa nos países de economia atrasada, ou seja, denominada pelo imperialismo como “em desenvolvimento”.
Outras questões consideradas estratégicas foram aquelas que dizem respeito à alta tecnologia e a necessidade de regulação da inteligência artificial. Discutiu-se a necessidade das potências do G7 de manterem-se unidas na disputa com a China, para que essa não tome a frente no controle da tecnologia mais avançada. As matérias-primas sensíveis e as tecnologias estratégicas são motivos para o G7 se manter unido em um movimento de contraposição à China.
No fundo, as potências europeias procuraram convencer os Estados Unidos de que o distanciamento a que se chegou devido à ofensiva unilateral de Trump em sua diretriz de guerra comercial e de anexações (Groenlândia, sobretudo) dificultava manter a frente unida contra a China e a Rússia. A tese de fortalecimento das regras multilaterais não é compatível com a guerra comercial e a escalada militar. Pode-se, no entanto, se esperar o recrudescimento do confronto com a China e a busca por uma maior participação no controle dos minerais críticos e, especificamente, das fontes de terras raras.
O governo Trump criou animosidade com a União Europeia e a Inglaterra quanto a que caminho tomar diante da guerra na Ucrânia. E Trump se sentiu atingido pela recusa das potências europeias em colocar a OTAN a sua disposição na guerra contra o Irã. Ressentiram-se da decisão unilateral dos Estados Unidos de atacarem o Irã e agravarem os desequilíbrios econômicos mundiais.
As sombras da guerra da Ucrânia e a do Irã, incluindo a da Faixa de Gaza e a do Líbano, turvaram a decisão da continuidade do financiamento ao governo de Zelensky e a confirmação por Trump do anúncio sobre a assinatura do memorando para se chegar a um acordo de fim da guerra com o Irã. Esteve claro na cúpula do G7 que os Estados Unidos não podem prolongar a guerra no Oriente Médio sem causar uma grande rachadura na economia mundial. O que dificultaria sua diretriz de enfraquecer a China.
Tudo indica, até onde chegaram as informações, que as potências imperialistas não têm como encontrar um denominador comum para alterar o curso da crise mundial e submeter a China. Seus interesses são múltiplos e conflitantes. A burguesia europeia está voltada a anexar a Ucrânia e se confronta com a resistência da Rússia. A burguesia estadunidense se dirige contra o avanço mundial da China.
O fundamental está em que a classe operária e demais explorados vêm reagindo, de uma forma ou de outra, às consequências da guerra comercial e escalada militar. Ainda limitada, certamente. As mobilizações coletivas pelas reivindicações mais elementares colidem frontalmente com os governos, seja qual for sua orientação política.
A crise de direção vem dificultando, quando não obstaculizando, o desenvolvimento da luta dos explorados e das nações oprimidas. A compreensão da natureza histórica da crise mundial pela vanguarda com consciência de classe e a firmeza com que se coloque à frente dos combates – como os que vêm ocorrendo na Bolívia – é um imperativo para encarnar o programa da revolução social. É no terreno da luta de classes e da revolução proletária que o imperialismo será combatido e derrotado.