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15 ago 2026
Editorial do jornal Massas n° 770
Em defesa da Revolução Cubana!
Romper o cerco dos Estados Unidos à economia e ao povo cubano
Organizar um movimento de frente única anti-imperialista na América Latina
Que as centrais, sindicatos e movimentos organizem os comitês de mobilização anti-imperialista!
Um bom sinal de resistência foram as manifestações no México e nos Estados Unidos no dia 26 de julho, sob as bandeiras “Não à guerra contra Cuba!” “Abaixo o Bloqueio a Cuba!”. Evidentemente, não se poderia esperar que a imprensa burguesa noticiasse. Embora tenham sido pequenas, principalmente as dos Estados Unidos, o fundamental está em que expressaram a necessidade da luta contra o esmagamento econômico de Cuba e a ofensiva do imperialismo estadunidense para derrubar o seu governo e regime.
O atraso em reagir ao objetivo contrarrevolucionário dos Estados Unidos e ao processo de restauração capitalista que vem se acelerando demonstra a profunda crise de direção revolucionária. É sintomático que as múltiplas correntes de esquerda, que compõem o espectro do estalinismo e do campo dos revisionistas do trotskismo, não tenham sido capazes de pôr em marcha a constituição da frente única anti-imperialista. A inércia diante da invasão militar e sequestro do presidente da Venezuela pelos Estados Unidos evidenciaram a bancarrota das esquerdas que se reivindicam do socialismo e dos mais variados tipos de nacional-reformismo.
Esse fenômeno se explica, em grande medida, pela adaptação das esquerdas à democracia burguesa e à governabilidade do nacional-reformismo, que foram perdendo grande parte de sua influência política com a derrocada do chavismo, evismo, peronismo e mesmo do petismo. O dilaceramento das esquerdas centristas se deve ao abandono e afastamento do programa da revolução social. De forma que se tornaram incapazes de reagir aos retrocessos nacionais e mundiais ditados pelas vitórias do imperialismo contra as conquistas das revoluções proletárias, que incluem as de Cuba, extremamente importantes para a América Latina.
As mudanças na situação mundial desde a constituição do Estado operário em Cuba – cuja Revolução de 1959 possibilitou a expropriação dos latifundiários, a nacionalização da indústria e dos bancos e o estabelecimento da centralização estatal, bem como a imposição da soberania nacional diante do imperialismo – são amplas e profundas, no sentido da decomposição do capitalismo. A derrocada da União Soviética em dezembro de 1991 favoreceu a diretriz norte-americana de isolar Cuba e mutilá-la economicamente ao ponto de impor ao seu governo o curso da restauração capitalista.
É necessário ainda considerar os impactos regressivos do processo de restauração na China. A emersão da economia chinesa, que passou a se chocar com a hegemonia norte-americana, se reflete na arena da guerra comercial e na escalada bélica impulsionada pelas potências imperialistas. Não é possível aos países de economia atrasada (semicoloniais) aproveitarem as vantagens apresentadas pela China sem que sejam arrastados à disputa mundial entre os monopólios na forma de guerra comercial e de fomento bélico. Esse conflito vem se manifestando com a orientação radical do governo republicano de Trump de submeter a qualquer custo os países latino-americanos. O que implicou acabar com o nacionalismo chavista e impulsionar o processo restauracionista em Cuba.
Esses primeiros passos dão concretude ao documento “Estratégia de Segurança Nacional voltada para a América Latina” e à retomada da ideologia imperialista consubstanciada historicamente na Doutrina Monroe. Uma das condições para os Estados Unidos se imporem diante da China é a de exercer o total controle das fontes de matérias-primas da América Latina e manter a subordinação de suas economias.
Em um vídeo publicado pelo Departamento de Estado, em 11 de agosto, a administração Trump faz ameaça aos países latino-americanos afirmando que o “domínio dos Estados Unidos em toda a América nunca mais será questionado”. Em março de 2026, a Casa Branca reuniu 12 países serviçais da América Latina para lançar o denominado “Escudo das Américas”. Tem conseguido influenciar as eleições e impor governos francamente antinacionais e antipopulares. O que restou do nacional-reformismo se encontra em frangalhos no México e Brasil. A mais recente vitória do ultradireitista Abelardo de la Espriella na Colômbia desequilibrou de vez a balança política em favor do “Escudo das Américas”. Trump já contava com as importantes vitórias na Argentina e Chile.
É nesse marco que se coloca a defesa de Cuba. O tempo corre a favor da contrarrevolução. A derrubada da última trincheira de apoio econômico à Ilha, mantida pelo governo chavista da Venezuela, abriu totalmente o caminho para os Estados Unidos sufocarem a economia cubana, impedindo a importação de petróleo e impondo novas sanções. O governo Trump simplesmente rompeu o acordo ditado pelo governo de Barack Obama, realizado entre 2014-2015, que flexibilizava as relações diplomáticas e comerciais com o governo de Raúl Castro. O seu sucessor, Miguel Díaz-Canel, deu passos no sentido das privatizações.
Sob tremenda pressão externa do imperialismo estadunidense e interna provocada pela crise energética (apagões e colapso dos serviços sociais), Díaz-Canel levou a Assembleia Nacional de Poder Popular (ANPP) a aprovar um plano restauracionista, que, se posto em prática, liquidará de vez com as conquistas da Revolução de 1959. Comentaristas da imprensa burguesa se referem às reformas como sendo tipicamente de “socialismo de mercado adotado pela China e pelo Vietnã”. Em resumo, “entre as reformas destacam-se a transformação das empresas estatais em sociedades comerciais por ações ou de participação, autorização para empresas privadas com mais de 100 empregados, participação de capital estrangeiro no setor privado e abertura de contas em moeda estrangeira para pessoas físicas; agricultura, turismo, setor bancário e mercado cambial ficarão abertos ao investimento privado, tanto nacional quanto estrangeiro; os cubanos poderão ter mais de uma empresa privada e participações em outras sociedades; será permitida a negociação salarial nas empresas”. No fundamental, “entre os pontos centrais estão a permissão para que empresas privadas contratem mais de 100 funcionários, o fim da restrição a um único negócio por empresário, abertura para bancos privados e a possibilidade de venda de propriedades estatais”.
Mesmo com o plano tão claramente restauracionista, voltado a constituir uma nova burguesia cubana, Trump considerou insuficiente. Exige a mudança de regime político, de forma a desmontar o que resta de herança da Revolução Cubana. Os Estados Unidos estão propensos a realizar a mesma operação que foi feita na Venezuela.
Cabe às centrais, sindicatos e movimentos reconhecerem a importância das manifestações no México e nos Estados Unidos, ampliá-las e fortalecê-las como trincheiras de combate ao imperialismo, de defesa de Cuba, pela expulsão dos Estados Unidos da Venezuela e enfrentamento à guerra comercial, sob a bandeira da autodeterminação e soberania nacional. Formar urgentemente os comitês de frente única anti-imperialista.
É nesse terreno que a vanguarda com consciência de classe tem de se empenhar ao máximo para constituir a frente única anti-imperialista, sob a estratégia da revolução social. Está posta em Cuba a tarefa de organizar um partido operário revolucionário, de caráter leninista, que se oriente pelo Programa de Transição da IV Internacional. Esse objetivo caminha no sentido de superar a crise mundial de direção.