• 10 out 2026

    Editorial: Preparar desde já o enfrentamento operário e popular ao governo de Flávio e seus aliados de segundo turno

Editorial do jornal Massas nº 774

Os bolsonaristas estão confiantes de que vão vencer e já apresentaram a linha geral de ataque à vida das massas e de proteção ao grande capital

Com as eleições, se potenciaram politicamente as forças da ultradireita e direita, que servirão ao imperialismo

Somente um movimento organizado e independente em relação a todas as variantes da política burguesa poderá combater com o programa e os métodos da luta de classes a continuidade do período de contrarreformas

É compreensível que Lula, o PT e seus aliados de esquerda alimentem a ilusão de reverter o resultado do 1º turno das eleições. Esse sentimento político corresponde à pequena diferença de votos que deu vitória a Flávio Bolsonaro. Ou seja, 56,1 milhões e 53,9 milhões, 47,03% e 45,16%, respectivamente. Possibilidade de Lula recuperar o terreno perdido existe, mas muito pequena. Eis por que Flávio está confiante e Lula, agarrado à ilusão. Caso a confiança dos bolsonaristas se desfaça diante de uma ilusão que se concretiza, a crise política continuará avançando e despedaçando a democracia oligárquica. O problema que afeta a classe operária e os demais explorados é de como romper a arregimentação eleitoral de milhões de oprimidos obtida pelo candidato da ultradireita, de um lado; e libertar-se das ilusões democráticas insufladas pelo nacional-reformismo, de outro.

Desesperadamente, Lula, PT e aliados como PCdoB e PSOL jogam com a mínima possibilidade de superar a derrota do 1º turno manejando os aparatos sindicais, populares e estudantis. Nesse sentido, foi significativa a manifestação da juventude no Rio de Janeiro organizada pela UNE, entidades estudantis estaduais e centros acadêmicos. Essas direções se mantiveram todo o tempo subordinadas ao governo nacional-reformista, colaborando para que os explorados e, em particular a juventude oprimida, não se organizassem no seu terreno próprio e se unissem em torno ao programa de reivindicações. Não foram capazes de enfrentar o avanço da ultradireita combatendo a própria política burguesa do governo Lula, cujos fracassos diante de uma grande parcela da população serviram de arma para a vitória do aventureiro Flávio Bolsonaro. Na condição de serviçais, omitiram-se e ocultaram o continuísmo das contrarreformas de Temer e Bolsonaro sob o governo de Lula. Contentaram-se com as medidas assistencialistas e com o baixo crescimento da economia, que mesmo assim reduziu a alta taxa de desemprego elevada no período da pandemia. Desconheceram a implantação da terceirização e a expansão da informalidade. Acreditaram que a miséria estava sendo combatida, sem atentar para o fato de que o assistencialismo tão somente a acobertava. Não houve e não haverá um portentoso crescimento econômico, criação de milhões de empregos formais, elevação dos salários e incorporação de milhões de jovens que se mantiveram e se mantêm no exército de desempregados e subempregados. Prenderam-se à farsa de que o governo Lula estava empenhado em promover o ensino público e gratuito, quando o que ocorria e ocorre é o agigantamento do sistema privado, cada vez mais monopolizado e desnacionalizado.

As direções sindicais, como um todo, e dos movimentos populares fecharam os olhos para os cortes de verbas dos serviços públicos e aplainaram o caminho para a contrarreforma administrativa. Utilizaram-se do seu autoengano para fazer acreditar que de fato o governo Lula era anti-imperialista e defensor de uma real soberania nacional. Confundiram uma resistência elementar do governo às imposições de Trump ao capital nacional e às instituições do Estado como se fosse o antagonismo da soberania nacional com a dominação imperialista dos Estados Unidos. Fecharam os olhos para o fato de Lula não fazer nenhum enfrentamento à invasão da Venezuela e sequestro do presidente Nicolás Maduro, bem como ao recrudescimento do cerco a Cuba. Lula condenou o genocídio em Gaza, mas foi inconsequente mantendo as relações econômicas e militares com o Estado sionista de Israel.

As organizações operárias, populares e estudantis permaneceram inertes diante do agigantamento da dívida pública, das altas taxas de juros e do insuportável parasitismo financeiro. O governo Lula é criticado por setores poderosos da burguesia e pela ultradireita e direita burguesas como responsável pelo crescimento da dívida pública e, assim, de um déficit orçamentário que deveria ser resolvido com medidas de contrarreformas mais drásticas. Certamente, o governo nacional-reformista não podia aumentar ainda mais os cortes de gastos públicos, pulverizar o assistencialismo e promover uma nova reforma da Previdência, como apregoavam e apregoam o capital financeiro. Em contrapartida, permitiu o aumento do parasitismo que envolve a dívida pública, mostrando-se impotente diante das altas taxas de juros decretadas soberanamente pelo Banco Central, que não passa de uma caixa de ressonância dos interesses do grande capital.

Na situação de contenção salarial e de aumento da informalidade, uma camada expressiva de assalariados e de pequenos negócios familiares excedeu o endividamento e boa parte se declarou inadimplente. A jogatina das Bets se encarregou de potenciar tal calamidade social. O governo Lula se adaptou à política dos cassinos dos governos anteriores para somente à véspera da derrota no 1º turno revogar o seu funcionamento. O assistencialismo mostrou sua importância eleitoral diante dos 53 milhões de votos, mas perdeu terreno aos ataques da ultradireita, que se apoiou na alta do custo de vida, na crescente violência urbana e, inclusive, pôde recorrer à hipocrisia da defesa da mulher e dos jovens, para obter a maioria eleitoral.

O governo de frente ampla de Lula serviu aos interesses da classe capitalista, mas se esgotou em sua capacidade de desviar e canalizar a atenção das massas para um novo momento de retomada da crise econômica que se avizinha e que poderá ser catastrófica para a maioria oprimida.

Flávio, contando com a vitória, assinalou que lançará um programa de contrarreformas, claramente antinacional, antioperário e antipopular. Lula e o PT sequer puderam rechaçá-lo porque necessitam, até o último momento, da condescendência de setores do capital nacional. Os ex-aliados da frente ampla já se prontificaram a auxiliar a ultradireita bolsonarista, desde que passem a deter uma parte de poder na condição da política econômica e se valer de postos no Estado.

Flávio contraiu uma dívida de ouro com o apoio de Trump a sua candidatura. Terá de pagar, às custas da economia nacional, das reservas naturais e da intensificação da opressão nacional. Terá de seguir a aliança de Trump contra a China, adversária econômica. O que agravará as divisões interburguesas e potenciará a crise da democracia oligárquica.

Baseado nesses fatores objetivos, o Partido Operário Revolucionário faz um chamado à classe operária, demais explorados e à juventude a se preparem desde já para enfrentar o possível governo de Bolsonaro. Não há variante de política burguesa que possa evitar a bancarrota econômica do Brasil que já se vislumbra no futuro próximo. O POR defendeu junto aos explorados o programa próprio e se posicionou pelo voto nulo. Essa linha não só se mantém como se mostra ajustada aos novos passos da decomposição do capitalismo e da luta de classes nacional e mundial. A vanguarda com consciência de classe tem o dever de combater no terreno da independência de classe, desenvolvendo o programa da revolução social e da estratégia da ditadura do proletariado.