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02 nov 2026
Terminadas as eleições com a vitória de Lula, Flávio Bolsonaro fez um breve pronunciamento não reconhecendo o resultado e devendo o pleito ser anulado. Os seus aliados logo corrigiram, explicando que se tratava mais de um desabafo, do que uma convicção. O bolsonarista derrotado ficou praticamente isolado, uma vez que as principais figuras da ultradireita e direita admitiram a vitória de Lula, atestando que não houve nenhum tipo de fraude eleitoral. Nesse sentido, teve enorme importância o posicionamento do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que tem amplo apoio da burguesia nacional.
Nem bem ressoava a surpreendente vitória de Lula e se dissipava a estúpida declaração do derrotado, Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil em direção aos Estados Unidos. Uma vez acolhido pelo governo Trump, Flávio publicou uma carta, qualificada de golpista por toda a imprensa. No libelo, dirigido “ao povo brasileiro e à comunidade internacional”, o bolsonarista se autointitula “líder do Brasil”. Imaginando-se como vencedor de uma eleição supostamente fraudada, se arvorou como um presidente asilado, que convoca seu partido, os aliados e a população a reagirem em favor de sua volta triunfante. O caminho seria “a cassação da chapa Lula-Alckmin”.
Flávio, para justificar a sua fuga, distorce e falseia a realidade dizendo-se perseguido. Compara a sua situação a de seu pai, Jair Bolsonaro, que se encontra em prisão domiciliar depois de condenado por um processo de tentativa de golpe de Estado, e a dos venezuelanos Juan Guaidó, Edmundo González e Maria Corina Machado, que agora voltam à Venezuela sob a proteção dos Estados Unidos, depois de realizarem uma operação militar, sequestrando o presidente Nicolás Maduro e passando a controlar a vasta reserva petrolífera do país. Todas essas personagens têm em comum serem politicamente serviçais do imperialismo estadunidense.
O que mais desejava o candidato bolsonarista era vencer as eleições para colocar o Brasil sob a guarda dos Estados Unidos e utilizar a presidência da República para escapar dos processos que expõem seus amplos e profundos laços com os porões da corrupção e com os chefes quadrilheiros da política burguesa. Mostrou-se como se fosse senhor de si ao sair vitorioso do 1º turno das eleições. Contava com a vitória no 2º turno. A marcha da campanha eleitoral indicava que essa era a maior probabilidade.
A recuperação do terreno nos últimos dias do pleito, de fato, foi surpreendente. Lula e seus partidários jogaram com todos os meios propagandísticos – na esperança de que o temor das massas quanto aos perigos que o candidato da ultradireita oferecia ao assistencialismo social e à democracia – para obter um deslocamento anti-bolsonarista. Esse tipo de ação e método é típico da democracia e da corrida eleitoral burguesas, voltados a dividir os explorados e arrastá-los por detrás das candidaturas em disputa pelo poder.
Flávio Bolsonaro contou a seu favor com a força econômica de setores da burguesia e do aparato das igrejas evangélicas pentecostais. Lula, de seu lado, contou com o posto presidencial para atrair amplos setores dos oprimidos com medidas assistencialistas no calor final da confrontação entre a ultradireita e o nacional-reformismo. A trajetória favorável a Flávio e a sua derrota final se deveram a esses meios completamente opostos à política da classe operária e da maioria explorada. É nessas condições que Flávio e Lula estiveram no mesmo terreno e usaram os meios que a política burguesa dispõem.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, acionado pela Polícia Federal (PF), decidiu pela apreensão dos passaportes de Flávio, imediatamente ao final das apurações. Essa determinação indicou que a fuga do candidato derrotado fazia parte das previsões estabelecidas pelas autoridades policiais e judiciais. Flávio, ao sair da “visita” ao seu pai, recebeu a ordem judicial de entregar os passaportes. Sabendo da previsão judicial, havia jurado de pés juntos que não tinha intenção de sair do país. A verdade é que Flávio estava com as malas prontas, no caso da derrota que se tornou realidade no final do 2º turno.
O plano orquestrado envolvia autoridades argentinas e norte-americanas. A fuga se tornou cinematográfica quando Flávio chegou aos Estados Unidos com a família e foi recebido laconicamente por homens do governo Trump. Ficou patente o envolvimento de Milei e Trump, aos quais o sequaz afaga e agradece. O avião que partiu da Argentina para Miami, da empresa Fly S.A, é descrito pela imprensa como um transporte aéreo de luxo. O custo do frete estimado foi de US$ 150 mil, aproximadamente R$ 800 mil. Em poucas horas, o meliante gastou uma fortuna ou foi agraciado por Trump-Milei. Pode ser também que bolsonaristas ricos tenham enchido a bolsa do fugitivo. O fato é que a fuga foi milionária.
Certamente, não há nada de espantoso, se se considerar que a candidatura de Flávio esteve alavancada por gastos astronômicos. Nesse sentido, assim também se passou com a de Lula. São marcas a fogo da política burguesa em um país predominantemente formado de pobres e miseráveis.
Segundo informações, Lula teria questionado a decisão de Alexandre de Moraes de recolhimento dos passaportes. O certo é que a imprensa foi quase unânime em criticar a “decisão monocrática de Alexandre de Moraes”, sobre o qual recai denúncias de vínculos com o banqueiro Vorcaro e com a quebra fraudulenta do Banco Master. A equação é a seguinte: um ministro corrupto cassa o passaporte do candidato derrotado corrupto, que, por sua vez, acusa o ministro corrupto de persegui-lo por corrupção. O fundo da questão, no entanto, não é a corrupção em si: a quantidade de autoridades envolvidas no caso Master e no do INSS é enorme.
O problema está em como a fuga de Flávio, motivada pelas denúncias de corrupção no caso do financiamento do filme Dark Horse, no valor de R$ 134 milhões, envolve os Estados Unidos. Trump abertamente garantiu a fuga de Flávio, não reconheceu as vitória de Lula e acusou as eleições de ilegítimas. Lula já vinha pisando em ovos diante do tarifaço de Trump e da ofensiva dos Estados Unidos na América Latina em favor da instalação de governos serviçais.
A administração trumpista trabalhou pela vitória do mascote Flávio. A interferência nas eleições brasileiras não teve como permanecer oculta. As redes sociais controladas pelo monopólio da Meta manobraram com os alegados problemas técnicos para favorecer o bolsonarista. Trump, certamente, ficou desapontado com a derrota de Flávio, quando tudo indicava que arrancaria Lula e o PT do comando do Estado.
Poucos países não reconheceram a vitória de Lula. Inclusive na América Latina, a Argentina ficou praticamente isolada, servindo aos desígnios de Trump. Essa formalidade diplomática não diminui o ímpeto do imperialismo estadunidense de manter as pressões sobre o Brasil nos marcos da guerra comercial com a China e da escalada bélica no Oriente Médio.
Era preferível a Lula que Flávio fugisse sem que tivesse a justificativa da cassação de seus passaportes. Se de fato as investigações que envolvem o filho de Bolsonaro forem às últimas consequências, chegarão às raízes de suas relações com as milícias do Rio de Janeiro. Lula desafiou Flávio a abrir suas contas bancárias. Diante de sua fuga, Lula não se vê no dever de cumprir a promessa de também abrir suas contas.
Passados esses momentos de crise aguda, todas as forças que emergiram na disputa eleitoral procuraram amenizar os antagonismos. Os porta-vozes da burguesia alertaram ao petista vitorioso que deve atender aos interesses do capital financeiro e monopolista para cumprir integralmente seu quarto mandato. Condenaram a fuga de Flávio e sua desastrosa Carta, mas recomendando ao governo brasileiro ser “pragmático” em relação aos Estados Unidos, ou seja, ceder o máximo possível às exigências de Trump. Desde já, as frações burguesas, que exercem maior influência sobre o Estado, os partidos e a democracia oligárquica, indicam Tarcísio de Freitas como a melhor via de oposição ao governo Lula.
A candidatura de Flávio, imposta aos partidos opositores de centro-direita, contrariou a vontade dos capitalistas mais poderosos, que tiveram de engolir a indicação de Jair Bolsonaro, já que havia se estabelecido uma fragmentação no campo da ultradireita e direita. Esperam que a crise econômica se agrave, cresça a influência dos Estados Unidos sobre o Brasil e se consolide o campo de centro-direita. Dentre essas expectativas, a mais provável é de que as condições econômicas se tornem ainda mais difíceis, Lula se submeta às forças de centro-direita e abandone mais claramente as posições do nacional-reformismo.
É preciso, desde já, – quando ainda a maioria explorada se encontra mergulhada nas ilusões democráticas e quando as suas imensas camadas que apoiaram a candidatura de Flávio se ressentem da derrota – que a vanguarda com consciência de classe dê continuidade à defesa do programa de reivindicações dos trabalhadores e da estratégia política da revolução social.
Tudo indica que o bolsonarismo sofreu uma dura queda, mas que continuará exercendo importante influência política mantendo-se como um canal dos interesses do imperialismo norte-americano. A ultradireita não foi e não será esmagada pela via eleitoral e nem por nenhuma política de Estado. O mesmo se pode afirmar das frações burguesas que se manifestam por meio dos partidos de centro-direita. Somente a classe operária com seu programa, com sua organização independente e com seu partido em construção poderá enfrentar a nova etapa da crise econômica e política, que não se limita ao Brasil, sendo de ordem mundial.
O Partido Operário Revolucionário (POR) se posicionou pelo voto nulo, não como um fim em si mesmo, mas em defesa do programa de reivindicações, da estratégia da revolução e ditadura proletárias e da independência de classe da maioria oprimida. A tarefa imediata é a de organizar o movimento em torno a uma Oposição Revolucionária ao governo burguês de Lula. Tem claro que a queda de Flávio e do bolsonarismo é episódica. O problema não se limita às tendências políticas que se gestam no interior da burguesia e do Estado. Sem dúvida, são muito importantes porque arrastam os explorados à submissão e às ilusões democráticas. O essencial, porém, se acha nas tendências de desintegração do capitalismo, que já não pode ser reformado. Em meio a contundentes contradições, emerge a crise de direção, ou seja, a necessidade de pôr em pé o POR, como seção do Comitê de Enlace pela Reconstrução da IV Internacional.