• 10 maio 2026

    Editorial: Em situação de agravamento da crise mundial, Lula é arrastado ao encontro com Trump

Editorial do jornal Massas nº 763

Em situação de agravamento da crise mundial, Lula é arrastado ao encontro com Trump

A burguesia brasileira e seu Estado não têm como defender e garantir a soberania nacional

Cabe à classe operária e às suas organizações lutarem pela independência do Brasil

Organizar a frente única anti-imperialista

O maior receio de Lula em se reunir com Trump era de que poderia haver um escracho como houve com Zelensky, presidente da Ucrânia. A ida do Brasil aos Estados Unidos, no entanto, era inevitável. Depois de um período de estremecimento das relações comerciais e diplomáticas, o terreno havia sido preparado pelo imperialismo para arrastar Lula a Washington e colocá-lo na Casa Branca sob o teto da potência mundial.

A fração da burguesia nacional mais poderosa definiu a conduta do governo brasileiro: não radicalizar as respostas e mostrar-se disposto à negociação. Não condenou, porém, a bandeira de soberania nacional quando Trump aplicou a lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. As vozes quase unânimes foram de que se tratava de uma interferência externa à soberania do poder Judiciário brasileiro e aplicação de uma diplomacia coercitiva. A exceção foi expressa pelos bolsonaristas, que se valem da sombra de Trump para se manterem como uma força política influente. Esse conteúdo particularizado atribuído à soberania nacional mal disfarçou os profundos laços históricos de subordinação do Brasil semicolonial aos Estados Unidos imperialistas. Trump jogou alto com as tarifas, como fez com os demais países sancionados, para determinar seus interesses econômicos e geopolíticos.

Como um dos países mais fortes economicamente e portador de um extraordinário potencial de matérias-primas na América Latina, o Brasil se encontra em meio à aguda guerra comercial desfechada por Tump, que tem a China como principal adversária. A ofensiva dos Estados Unidos contra o Brasil fez parte de um plano de pressão imperialista sobre a América Latina. As burguesias nacionais e seus Estados teriam ido longe na abertura de canais comerciais, financeiros e diplomáticos com a China.

Um dos primeiros passos de Trump foi o de intervir diplomaticamente e ameaçar com uso de força o Panamá. Em seguida, montou o cerco naval e aéreo à Venezuela. Lançou mão do artifício do combate ao narcotráfico que o imperialismo denomina de narcoterrorismo. A invasão militar do país e o sequestro do presidente da República Bolivariana foram consequentes com o objetivo de passar ao controle dos Estados Unidos as reservas petrolíferas e cercear a penetração da China sedenta de matérias-primas à sua pujante indústria. É inaceitável para os Estados Unidos que os capitais chineses impulsionem a Nova Rota da Seda, como impulsionaram na Ásia e na África.

O Brasil nas últimas duas décadas estabeleceu uma frutífera relação comercial com a China, que aproveitou do seu gigantesco desenvolvimento para a compra de commodities e venda de manufaturas. Nesse marco, penetrou na estrutura econômica de importantes países da América Latina, sobretudo na do Brasil. As exigências dos Estados Unidos para que os países latino-americanos se mantenham sob a guarda das multinacionais e do capital financeiro norte-americanos implicam que os Estados e governos limitem o máximo possível suas relações com o Estado chinês. Nota-se que os conflitos econômicos e políticos gerados pela dominação estadunidense na América Latina ultrapassam as fronteiras regionais do continente, de forma que são de ordem internacional. Haja vista os vínculos e a interdependência da ofensiva militar na Venezuela e as ameaças ao Panamá com a guerra no Oriente Médio contra o Irã, a continuidade da guerra desfechada por Israel contra os palestinos e a resistência no Líbano, e, sem dúvida, com o prolongamento da guerra na Ucrânia.

A guerra comercial, a escalada bélica e as guerras em curso provocam fracionamentos na burguesia mundial e toda sorte de pressão em torno a alinhamentos. Concretamente, a subordinação do Estado venezuelano aos desígnios da Casa Branca golpeou o alinhamento que o governo de Nicolás Maduro mantinha com a China. Desse tormentoso acontecimento, vem se movimentando a dependência dos países latino-americanos, de acordo com suas particularidades, com os Estados Unidos nas novas condições de relações com a China. Basta que pendam no sentido de maior aproximação com o comércio e os capitais chineses para o imperialismo atuar por cima dos Estados nacionais, procurando não só conservar a velha dependência como estreitar ainda mais – no processo da guerra comercial, da escalada bélica e das guerras – a hegemonia dos Estados Unidos alcançada após a Segunda Guerra Mundial.

Os governos nacional-reformistas, que são agora a ultraminoria na América Latina, se veem em condições precárias devido às dificuldades econômicas e políticas de seguir a guerra comercial de Trump contra a China. A troca de governos nacional-reformistas por ultradireitistas pela via eleitoral, como foram os casos da Argentina, do Chile e da Bolívia – no da Venezuela o que restou do governo chavista se tornou refém dos Estados Unidos -, enfraqueceu ainda mais o que sobrou deles. É o que se verifica com a Colômbia, o Brasil e o México. A debilidade dos governos que formalmente desfraldam a bandeira da soberania nacional aumentou em favor dos ditames dos Estados Unidos. O que não elimina as contradições cada vez mais agudas entre as nações oprimidas e, em particular, os Estados Unidos que as oprimem e as saqueiam. Tais contradições se tornaram mais poderosas e sensíveis em se tratando do Brasil.

A economia brasileira passou a depender, em certa medida, da economia chinesa. Uma interrupção tem como consequência golpear o setor agroexportador e minerador. A retração da penetração dos capitais chineses atingiria importantes ramos industriais e infraestrutura. Os objetivos econômicos dos Estados Unidos em sua guerra comercial contra a China conduzem a uma retração na economia do Brasil e da América Latina.

O problema está em que as guerras em curso são sinais de que o capitalismo mundial se encontra em um processo avançado de decomposição. Não há como obstaculizá-lo pela via dos acordos econômicos e diplomáticos. O rearmamento da União Europeia e do Japão se encontra nos primeiros estágios de um choque mundial que se apresenta em perspectiva no futuro. Eis os motivos de as Forças Armadas brasileiras se movimentarem no sentido de seu armamento.

Sem dúvida, é preciso considerar nessa equação a luta de classes que se amplia em todo o mundo. No Brasil, se acha mais contida devido à política de conciliação de classes que vigorou e se fortaleceu nos vários governos petistas. Lula está diante da dificuldade de apresentar uma candidatura vitoriosa e amenizar a polarização política encabeçada pela movimentação da ultradireita e direita.

Para se compreender o encontro de Lula com Trump, realizado no dia 7 de maio, é preciso considerar o quadro geral da crise, as relações de força no interior da burguesia mundial e as possibilidades da luta de classes encabeçada pelo proletariado. Geralmente, as reuniões na Casa Branca são movidas por uma grande propaganda da administração Trump. Dessa vez, Lula obteve um acordo de manter em semi-sigilo o que se passou nas três horas de discussão. Tanto Trump quanto Lula declararam que foi positiva e que aguardam novas tratativas entre ministros dos dois países. Ou seja, a reunião se realizou sem que houvesse pontos para um acordo a serem anunciados.

A informação de que se criará um “grupo de trabalho” para responder ao crime organizado, sem que se expusesse a divergência do Brasil com a definição imperialista de narcoterrorismo, transpareceu a impossibilidade de um acordo nesse ponto tão sensível. Os Estados Unidos usam a falsa definição para intervir militarmente nos países que se sujeitam a essa orientação. Quando Lula diz que o narcotráfico se encontra intimamente infiltrado no capital financeiro, nos meios econômicos de lavagem de dinheiro e no tráfico de armas, está demonstrando o óbvio. Trump já esperava essa contestação.

O principal de sua intenção foi a de comunicar ao Brasil que deve colocar as reservas de terras raras e minerais críticos nas mãos das multinacionais norte-americanas e associadas. A resposta de Lula de que “o Brasil está aberto a construir parcerias internacionais com diferentes países” e sua exortação para que os Estados Unidos invistam mais na economia brasileira refletiram a incapacidade da burguesia nacional e seu Estado defenderem a soberania do país. Em abril, o governo de Goiás chegou a um acordo com os Estados Unidos de “cooperação” na extração de minerais críticos. A empresa norte-americana Rare Earth adquiriu a empresa de mineração Serra Verde. Consolidou o caminho para a desnacionalização do subsolo. Esse fato revelou o descontrole da federação sobre os recursos minerais. O que indica a força econômica das multinacionais e do capital financeiro sobrepostos às riquezas nacionais.

A ala esquerda do PT propôs a formação de uma estatal voltada à exploração das terras raras e outros minerais críticos. O nome seria Terrabras. Houve uma imediata reação de setores capitalistas e da política oligárquica dominante. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias, se encarregou de enterrar a proposição. Posta de lado a estatização, se aprovou um Projeto de Lei, que estabelece um marco legal para a exploração de minerais críticos e terras raras. Essa manobra mais revelou do que ocultou a subserviência da política burguesa e de suas instituições ao capital internacional. Tudo indica que os próximos passos serão de afirmação do controle pelos Estados Unidos desses recursos que estão no centro da guerra comercial.

As centrais, sindicatos e movimentos se mostraram alheios à defesa da estatização e, portanto, da soberania nacional. É claro que se trata de um problema mais amplo que é o do controle geral das riquezas nacionais. É imperativo assinalar que o caminho foi o da desestatização e privatização do subsolo. Ou seja, o do reforço às forças econômicas contrárias à soberania nacional.

A classe operária deve se alertar e se erguer como uma força social que encarna a real soberania nacional do país subjugado pelo imperialismo. A bandeira de estatização, nacionalização, das riquezas naturais e minerais faz parte do programa da revolução social. E a tática revolucionária é a da frente única anti-imperialista. Eis por que somente o proletariado como dirigente da maioria oprimida pode combater no campo da independência de classe todas as medidas de desnacionalização da economia brasileira. Nesse sentido, é preciso dizer claramente que Lula se reuniu com Trump na condição de subserviência, expressão política da subserviência da burguesia nacional.