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06 jun 2026
Editorial do jornal Massas nº 765
Trincheira avançada da resistência anti-imperialista na América Latina
O levante de camponeses, indígenas, operários e camadas da classe média arruinada põe à luz do dia a necessidade histórica da revolução social
O Partido Operário Revolucionário (POR) emerge com seu programa testado historicamente pela luta de classes na Bolívia
Está posta a constituição da Assembleia Popular como organismo de poder das massas insurretas
Toda força à organização da frente única anti-imperialista
No 1º de Maio, no ampliado da Central Operária Boliviana (COB), foram levantadas as reivindicações dos explorados e aprovada a greve geral contra a política e o plano econômico pró-grande capital e pró-imperialista do governo Rodrigo Paz. Desencadeou-se um movimento impulsionado pelas massas camponesas e indígenas. São, portanto, trinta e cinco dias de combate incessante e de resistência à repressão policial. A greve geral não ganhou força, mas os bloqueios de estradas e avenidas urbanas protagonizados pelos camponeses e nacionalidades indígenas se impuseram, paralisaram o país e encurralaram o governo que mal cumpria seis meses de mandato em 1º de Maio.
A disposição de combate dos pobres do campo se agigantou com as marchas e manifestações na capital e nas principais cidades. A direção da COB se viu influenciada e premida pela envergadura das ações camponesas e indígenas. O que colocou a obrigatoriedade de parte da burocracia sindical cobista se posicionar, mobilizando um setor de mineiros, de transportes e assalariados urbanos. A intervenção dos operários da mineração indicou objetivamente a existência da aliança operária e camponesa alicerçada nas reivindicações que levantaram as massas em grande parte da Bolívia.
A unidade da maioria oprimida, embora ainda limitada, chocou-se com o governo com tamanha radicalidade que passou a atingir o Estado burguês. Ou seja, não se tratava e não se trata tão somente da rejeição a uma orientação antinacional e antipopular de Rodrigo Paz, mas objetivamente do choque dos explorados com a ditadura de classe da burguesia boliviana e com a dominação imperialista, exercida principalmente pelos Estados Unidos.
Esse conteúdo de classe se expressa na falência de governos distintos quanto à diretriz ideológica burguesa. Está aí por que o governo do Movimento ao Socialismo (MAS), que imperou por treze anos sob a condução de Evo Morales e cinco anos sob a de Luis Arce, concluiu decomposto e contraposto às necessidades mais elementares dos camponeses, indígenas, operários e camadas da classe média urbana arruinada.
O MAS emergiu como salvação do Estado burguês e dos interesses gerais da burguesia em meio a uma convulsão social que derrubou o governo entreguista de Sánchez Lozada, em outubro de 2003. O governo de transição acabou cedendo lugar ao novo fenômeno político encarnado pelo MAS que se apoiava na bandeira de constituir um Estado Plurinacional. Sobreviveu por mais de uma década e meia. O indigenismo e reformismo pequeno-burguês do MAS foi se esfacelando diante das contradições econômicas típicas do país semicolonial, profundamente atrasado e marcado pela pobreza e miséria da maioria oprimida.
O conteúdo ideológico do indigenismo e do Estado Plurinacional evidenciou sua ficção e farsesca à medida em que foi sendo revelada sua adaptação às relações capitalistas de produção, à grande propriedade agrária, bem como exposta sua impotência diante dos ditames do imperialismo. Evo fugiu do país golpeado pelo levante popular em 2019. O governo de transição não teve como recompor a situação política e acabou dando lugar à volta do MAS em 2020, com a eleição de Luis Arce. O novo governo do MAS, profundamente dividido, imediatamente se mostrou frágil e incapaz de governar o país mergulhado na crise econômica e no avanço da pobreza das massas. Incapacitado, abriu o caminho para a volta de um governo direitista e francamente pró-imperialista de Rodrigo Paz.
A retomada da luta de classes em níveis tão elevados que contêm características insurrecionais corresponde a mais uma etapa da crise política aberta em 2003, e a continuidade das mobilizações de 2019, ainda que se deva considerar as particularidades de cada levante. Se uma fração ultradireitista da burguesia se valeu do descontentamento dos explorados com o governo de Evo Morales, agora não encontrou possibilidade de influenciar o levante camponês. Eis por que, no presente momento da crise política, emerge cristalinamente o programa da revolução social, a estratégia de poder do proletariado, a necessidade de retomar a tradição da Assembleia Popular e de constituir a frente única anti-imperialista.
Esse programa é encarnado pelo POR, cuja tarefa tem sido traduzi-lo no interior do combate dos explorados ao governo de Paz, que, por sua clara identificação com os grandes capitalistas e o imperialismo, deixa transparecer que o problema não se atém ao tipo de governo e a sua diretriz econômica, mas ao próprio Estado capitalista, que deve ser derrubado.
As teses, análises, diagnósticos e prognósticos do POR, estabelecidos ainda sob a direção de Guillermo Lora, se confirmam e colocam para a vanguarda revolucionária trabalhar no sentido da luta pela tomada do poder. Evidentemente, não se trata de respostas mecânicas e extemporâneas. O movimento indica suas limitações e fraquezas no fato de a classe operária ainda não ter se lançado com sua plena força social. A bandeira de “renúncia de Rodrigo Paz e novas eleições” se torna um guia para a direção majoritária que não encarna a luta por um governo operário e camponês e se nega a pôr em pé a Assembleia Popular.
A firmeza do POR em criticar e rejeitar as vias de solução burguesa para a crise é fundamental para a conclusão política do movimento que, ainda que se mostre pujante, alcançou seus limites.
O governo acaba de aprovar no Senado a lei do “estado de emergência”. Vem vacilando quanto à aplicação do método abertamente ditatorial. O imperialismo já se faz presente por meio das ações ditadas pelo Secretário de Estado, Marco Rubio. O que pressupõe o amparo ao governo e o Estado bolivianos com as armas da contrarrevolução.
A intervenção da Igreja Católica, sob a máscara da conciliação e da paz social, se faz com a espada da democracia formal, ou seja, da exigência de que o movimento respeite “os resultados das eleições”. Assim, o Arcebispo de La Paz, Dom Percy Galván, pôs-se a serviço da ditadura de classe da burguesia e da posição contrarrevolucionária dos Estados Unidos.
O impasse entre a permanência ou renúncia do presidente não favorece o movimento. As forças da reação vão se unir em defesa de Paz, agora, mais nitidamente alicerçadas no intervencionismo de Trump. Os camponeses terão de sustentar e ampliar os bloqueios. A classe operária tem de romper suas limitações. E a camada da classe média urbana oprimida precisa se colocar decididamente pela aliança operária e camponesa.
A confluência do levante com o programa e a política do POR é a chave do combate à contrarrevolução. Se as massas não ampliarem o combate e encontrarem os meios para derrubar o governo com seus métodos próprios da luta de classes, está posta a questão de como evitar o massacre, lutando ao mesmo tempo contra uma possível capitulação das direções democratizantes.
Na base dessa contradição, coloca-se a necessidade de fortalecimento do POR, no seio da classe operária e da maioria oprimida. Está aí a importância de pôr em pé a frente única anti-imperialista, sob a estratégia da revolução social. O que se passa na Bolívia é um movimento anticapitalista e anti-imperialista, que se encontra na luta de classes da América Latina, convulsionada pela crise mundial e pela ofensiva dos Estados Unidos em submetê-la à sua arremetida com a guerra comercial e com a escalada bélica.
Cuba foi empurrada para a beira do precipício. A Venezuela padece da intervenção norte-americana. O México vem sendo sacudido pelas mobilizações originadas da desintegração econômica do país. O Brasil passa por uma polarização política alimentada pela estratégia de Trump de alinhar todos os países da América Latina à sua política mundial, a exemplo do que já vem ocorrendo com a Argentina, Chile, Equador e outros. A Colômbia poderá passar ao controle dos Estados Unidos com uma possível vitória do candidato da ultradireita.
É nesse marco que a Bolívia se projeta como uma trincheira avançada da luta contra os governos pró-imperialistas e em defesa da nação oprimida. De fato, há uma resistência dos explorados em todo o continente. Nesse ponto fundamental, a Bolívia convulsionada não está isolada. O problema está evidentemente consubstanciado na crise de direção. A vanguarda com consciência de classe tem o dever de assumir plenamente o programa da revolução social e combater, constituindo a frente única anti-imperialista em cada país, segundo suas particularidades.
O Comitê de Enlace pela Reconstrução da IV Internacional (CERQUI) tem trabalhado sob essa orientação. O fortalecimento do POR e o avanço da revolução proletária na Bolívia, sem dúvida, é uma das condições essenciais para recuperar o terreno perdido para as contrarrevoluções e, assim, alcançar um novo estágio de reconstrução do Partido Mundial da Revolução Socialista, a IV Internacional.