• 04 jul 2026

    Editorial: Abaixo a 68º Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Associados!

Editorial do jornal Massas nº 767

Abaixo a 68º Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Associados!

Em defesa da autodeterminação das nações oprimidas!

Em defesa dos camponeses, indígenas, operários e demais trabalhadores bolivianos!

Fora os Estados Unidos da Venezuela!

Quebrar o cerco imperialista a Cuba!

Derrotar a guerra comercial de Trump!

Fim imediato da guerra de dominação dos Estados Unidos e Israel no Oriente Médio!

Por uma paz sem anexação na Ucrânia!

A 68ª Cúpula do Mercosul, realizada no Paraguai, em 30 de junho de 2026, ocorre em um momento de agravamento da crise mundial. A guerra comercial e a escalada militar, chefiadas pelos Estados Unidos, são os reflexos mais contundentes da desintegração da ordem capitalista estruturada após a Segunda Guerra Mundial. O acúmulo de crises insolúveis desde a década de 1970 potenciou o choque entre as forças produtivas altamente desenvolvidas e as relações de produção capitalistas. Estas já não cabem na camisa de força das fronteiras nacionais alteradas pela partilha estabelecida nos acordos de Yalta e Potsdam, de 1945.

Os Estados Unidos ampliaram sua dominação e impuseram uma hegemonia jamais alcançada por qualquer potência colonialista ou imperialista. Realizaram uma grande ofensiva econômica para enfrentar o ciclo de crises aberto há cerca de seis décadas. Impuseram sua política de abertura das economias e de maior subordinação das nações semicoloniais. Triunfaram com a restauração capitalista e a derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em dezembro de 1991. Impulsionaram as forças restauracionistas na China, que passou a se integrar às relações capitalistas mundiais a partir das reformas de 1978. Promoveram golpes militares, sobretudo, na América Latina. Alimentaram as guerras na África e no Oriente Médio. A guerra comercial, que se intensificou desde 2018, sob o primeiro governo de Trump, com a China, alcançará dimensões gigantescas na atualidade.

A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, por sua vez, emergiu nas condições de afundamento econômico do velho continente europeu. O seu prolongamento até os dias de hoje continua a ser um risco de confrontação entre os membros da OTAN e a Rússia. A guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã — antecedida e preparada pelo intervencionismo colonialista na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no Líbano — potenciou os fatores da crise econômica, agravados pela guerra comercial. Na América Latina, o acontecimento que mais a abalou foi a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, o que resultou em sua completa submissão às ordens de Washington.

Os Estados Unidos aproveitaram a fragilidade da burguesia latino-americana para levar a cabo o objetivo de restaurar o capitalismo e controlar diretamente Cuba por meio de suas multinacionais. Trump se sente confortável em atacar o Brasil e o México, tendo a seu favor a ascensão de governos francamente pró-imperialistas e serviçais na imensa maioria dos países latino-americanos, principalmente na Argentina e no Chile. Obteve uma importante vitória com a derrota do candidato do nacional-reformismo na Colômbia.

Essa síntese clareia o significado da 68ª Cúpula do Mercosul. Ela mostrou-se incapaz e encolhida diante da guerra comercial e do intervencionismo militar dos Estados Unidos.

O objetivo anunciado era o de ampliar as relações econômicas do Mercosul com a União Europeia, o Japão e a China. Sem se referir ao unilateralismo do imperialismo estadunidense, a Cúpula se propôs a “preservar e fortalecer o sistema multilateral de comércio”. Como se estivesse navegando em um mar de rosas, declarou-se favorável ao “diálogo e à cooperação como ferramentas fundamentais para promover um comércio aberto, previsível, transparente, não discriminatório e baseado em regras”.

Não poderia faltar a demagogia sobre o “fortalecimento da democracia, do Estado de Direito, do desenvolvimento sustentável, da inclusão social e da igualdade em todas as suas dimensões”; bem como sobre “a promoção e proteção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais”. Bastaram as presenças de Daniel Noboa Azín, do Equador; Rodrigo Paz Pereira, da Bolívia; e do ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, da Argentina (Javier Milei não compareceu), para se ter a ideia do que significa o palavreado sobre “democracia”, “Estado de Direito” e “direitos humanos”. A mais completa omissão quanto à violação dos mais elementares direitos democrático-burgueses nos Estados Unidos preenche perfeitamente o conteúdo desses valores.

É preciso destacar que Lula representou a voz dessa farsa e do compromisso de não se diferenciar dos chefes de Estado que são claramente aliados de Trump. Não se obteve nada de concreto no plano do alargamento comercial do Mercosul com a União Europeia e o Japão. Quanto à China, havia apenas a intenção de iniciar discussões comerciais. De forma um tanto difusa, esteve na pauta a questão da exploração das terras raras, em torno das quais os Estados Unidos se digladiam com a China. Países como Brasil, Bolívia, Chile e Argentina terão de abrir mão de seu controle ou, então, ver-se-ão diante das imposições norte-americanas. Os interesses dos europeus e japoneses são os mesmos dos Estados Unidos, que vêm preparando a confrontação com a China. É visível que o Mercosul não tem unidade nem potencialidade para agir como um bloco no terreno da guerra comercial e dos interesses financeiros regidos pelas potências imperialistas.

O que restou da 68ª Cúpula foram os pronunciamentos antidemocráticos e reacionários, como os de apoio ao presidente da Bolívia, bem como as lamentações hipócritas diante da tragédia por que passa a Venezuela.

Quanto à Bolívia, o Mercosul condenou os métodos de luta dos camponeses, indígenas e trabalhadores urbanos. Afirma a declaração que os chefes de Estado “ratificaram a necessidade do pleno respeito ao governo legítimo e constitucional do Estado Plurinacional da Bolívia”. O Mercosul assumiu, portanto, a repressão governamental aos oprimidos em luta e a decretação do “estado de exceção”.

Quanto à Venezuela, os “Presidentes dos Estados Partes do MERCOSUL e Estados Associados expressam suas mais profundas condolências às famílias das vítimas dos terremotos que atingiram a República Bolivariana da Venezuela em 24 de junho de 2026”. Lula aproveitou para se promover como um presidente magnânimo: “Quero começar a minha fala dedicando minha solidariedade ao povo e ao governo da Venezuela diante das perdas humanas e materiais incalculáveis causadas pelos terremotos da semana passada. Tragédias como essa nos convidam a refletir sobre a importância da solidariedade e da integração”.

O Brasil teve um papel fundamental na aplicação do Protocolo de Ushuaia, que desligou a Venezuela do Mercosul, atendendo às pressões dos Estados Unidos e dos governos latino-americanos serviçais. Sob a máscara da democracia, esses oportunistas e democratas falsários desconheceram vergonhosamente que a Venezuela está sob intervenção dos Estados Unidos, que saqueiam seu petróleo e avançam no sentido de controlar as fontes de riquezas naturais do país.

Não há a menor dúvida de que esse acontecimento trágico alargará ainda mais a crise econômica da Venezuela e favorecerá os objetivos colonialistas dos Estados Unidos. Tudo vai depender de a classe operária venezuelana se erguer em uma frente única anti-imperialista. O que exige a sua emancipação do domínio do nacionalismo chavista, que se mostrou incapaz de levar adiante a expropriação do grande capital e concluiu seu processo de degradação, a ponto de não reagir à agressão de Trump.

Por todos esses motivos, a classe operária e os demais explorados latino-americanos devem condenar o resultado da 68ª Cúpula do Mercosul. Cabe, em cada país, organizar o movimento independente das burguesias e de seus governantes, sobre a base de um programa próprio, e pôr em pé uma frente única anti-imperialista.