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18 jul 2026
Editorial do jornal Massas nº 768
Abaixo as tarifas de Trump contra o Brasil!
Definir claramente que se trata de uma ação imperialista
Que as centrais, sindicatos e movimentos convoquem imediatamente uma manifestação nacional
Organizar os comitês de frente única anti-imperialista
A nova arremetida dos Estados Unidos contra o Brasil era esperada. Trump aproveitou e aproveita a incapacidade do governo Lula de responder à agressão norte-americana. Incapacidade essa que reflete politicamente a subserviência histórica da burguesia brasileira ao domínio estadunidense sobre o país e a América Latina.
As multinacionais e o capital financeiro da maior potência mundial se encontram profundamente enraizados e disseminados por todos os ramos fundamentais da economia brasileira. É o que permite aos Estados Unidos pleitearem exigências comerciais e imporem sanções na forma de elevação tarifária. Certamente, não se trata de um caso isolado.
Nos primeiros dias de sua posse na presidência da República, Trump anunciou seu plano de guerra comercial abarcando a maioria dos países que têm muito ou algum peso no plano da economia mundial. Caso a caso, os Estados Unidos foram impondo condições e concessões aos concorrentes. Obtiveram “acordos” com a União Europeia, Índia, China entre outros. Em particular, teve de recuar nas megas tarifas aplicadas à China. Assim ocorreu porque o gigantesco país asiático conserva o monopólio da exploração das estratégicas terras raras, e os Estados Unidos são dependentes.
A guerra comercial de Trump não atinge homogeneamente todos os países considerados concorrentes. Tem como centro a confrontação com seu maior adversário econômico, a China. Esse fator condiciona em última instância a guerra comercial desatada na América Latina, cujos países mais visados são o Brasil e o México. São dois países que exercem influência econômica no Continente. No caso da Argentina, a guerra comercial não a atinge porque conta com um governo de ultradireita e serviçal.
É importante, porém, não perder de vista que toda a América Latina se encontra sob as pressões das disputas dos Estados Unidos com a China. Em relação ao México, o imperialismo norte-americano objetiva estrategicamente anexá-lo, assim como almeja o mesmo destino para o Canadá. Ali as fronteiras nacionais são os obstáculos imediatos às forças produtivas conduzidas pelos Estados Unidos e que se acham comprimidas pelo esgotamento da partilha ocorrida após a Segunda Guerra Mundial. É significativo o fato de que Trump tenha exposto com toda a clareza a pretensão de anexar a Groenlândia, a despeito de pertencer a Dinamarca, membro da União Europeia e OTAN.
O Brasil detém uma portentosa reserva natural, da qual as potências industriais vêm dependendo cada vez mais. As fontes de matérias-primas têm se reduzido e esgotado em latitudes anteriormente fartas e expostas à exploração do capital monopolista. Trump fixou algumas metas para o Brasil. As principais são: acesso e controle das riquezas minerais – entre elas, as terras raras -, maior favorecimento às multinacionais norte-americanas, proteção ao capital financeiro manejado desde os Estados Unidos e cerceamento à China.
Os conflitos do governo Trump com o Brasil – e, assim, com o governo Lula –, em torno ao PIX, às big techs (comércio eletrônico) e ao “narcoterrorismo”, são a ponta de um iceberg do fator fundamental, que se encontra nas fontes de matérias-primas e energia. A corrida das multinacionais para se apossarem das áreas de mineração, em Minas Gerais, que abrigam o lítio, é um dos sinais de que se acirrará a guerra comercial em solo brasileiro. O lítio é um componente indispensável para as baterias dos carros elétricos. A dianteira da China nesse ramo de produção se choca com as multinacionais norte-americanas, europeias e japonesas, que há muito exerciam o seu monopólio. Evidentemente, como se constata, não se pode diminuir a importância da guerra comercial pelo controle das forças econômicas do mercado interno.
O tarifaço de 25%, somado aos 10% aplicados anteriormente, representa um ataque frontal a ramos da produção industrial – como máquinas e equipamentos, madeira e móveis, borracha, pneus, açúcar, etanol, calçados e vestuários etc. O que significará um perda de 18% no valor das exportações brasileiras.
Os mais de 2.100 produtos que ficaram fora do tarifaço foram poupados devido a sua absorção no mercado interno dos Estados Unidos. Em se mantendo essa taxação, a sua média saltará de 1,3% para aproximadamente 9,5%, segundo cálculo exposto por analistas.
É extremamente grave a retaliação que atingirá a indústria de máquina e equipamentos. O Brasil tem padecido do processo de desindustrialização. Quanto mais os Estados Unidos limitarem a exportação de manufaturas brasileiras, mais comprometerão o funcionamento da estrutura industrial do país.
Está absolutamente evidente que o Brasil se vê diante de uma brutal ofensiva dos Estados Unidos contra a sua economia. Isso quando o imperialismo estadunidense obtém superávit na balança comercial. Se se apurar o montante de remessas de lucro das multinacionais para suas matrizes e o quanto saqueiam as riquezas do Brasil por meio do capital financeiro, se terá a dimensão mais exata do ataque resultante da guerra comercial. Caso não se modifique esse quadro desfavorável à economia brasileira, o superávit dos Estados Unidos será ainda maior.
Sob a coordenação do vice-presidente, Geraldo Alckmin, o governo Lula promoveu dois pronunciamentos coletivos. Ministros e o presidente do Banco Central se viram diante de uma enorme pressão dos setores empresariais mais atingidos. Como na primeira investida de Trump, vozes capitalistas procuraram responsabilizar o governo, sob a acusação de que não houve disposição de Lula em negociar com Trump. Uma falsificação evidente. O governo brasileiro fez de tudo para não se chocar com os Estados Unidos. O problema está em que abrir mão do PIX, entregar as fontes de matérias-primas, curvar-se diante das big techs, aceitar a intromissão de Trump na Justiça brasileira, assumir a falsa caracterização de narcoterrorismo e romper relações com a China significaria uma sujeição, que colocaria o Brasil na condição de serviçal dos Estados Unidos na América Latina e no mundo. É o que está cumprindo o governo Milei na Argentina.
Na primeira investida, o governo renunciou a realizar um contra-ataque, mesmo tendo a seu dispor a lei da reciprocidade. Continuou a procura de um entendimento com Trump, ao mesmo tempo que lançava mão de medidas protetoras dos empresários mais afetados. Agora, mantém a mesma linha. As federações e confederações empresariais não puderam ir muito adiante com as críticas ao governo, uma vez que o novo tarifaço gerou uma tumultuada aversão a Trump.
É o que se observou diante do repúdio, inclusive de setores da direita, à posição de Flávio Bolsonaro, que correu a se jogar nos braços do chefe do imperialismo para lhe pedir que adiasse o tarifaço. Tudo indica que a combinação desse acontecimento com a revelação dos vínculos de Flávio Bolsonaro com o escândalo do Banco Master serviu para melhorar eleitoralmente a candidatura de Lula. Mesmo que a bandeira de soberania nacional esteja esfarrapada, a burguesia brasileira não tem como jogá-la no lixo.
Mesmo as camadas populares mais despolitizadas, mal informadas e submissas aos aparatos da burguesia – entre eles, as igrejas – não foram suscetíveis a ponto de seguir o caminho traçado por Flávio Bolsonaro e seus acólitos. Pressentem que os ataques de Trump não se limitam a uma oposição ao governo Lula. Os ataques vão mais longe atingindo a indústria, o comércio e, consequentemente, à economia como um todo. Os próprios empresários assombram com a possibilidade de demissão em massa.
Esse pressentimento popular é favorável à condenação do imperialismo e à mobilização em defesa da nação atacada, ou seja, oprimida. O governo Lula, assim como a política burguesa de conjunto, do PT ao PL, se negam a expor o conteúdo imperialista do ataque, de forma a manter a população à margem dos acontecimentos. O Brasil está diante de uma guerra comercial na condição de país capitalista subordinado às forças mundiais do imperialismo. Não há como realizar negociações entre Estados Unidos e Brasil em pé de igualdade, como exortam os próprios capitalistas e seus porta-vozes.
É nesse marco que as direções sindicais e dos movimentos populares contribuem com a confusão entre os explorados e acabam se sujeitando à impotência do governo Lula, bem como às falsificações da burguesia brasileira.
Ao contrário, a vanguarda com consciência de classe levanta a bandeira anti-imperialista de “Abaixo o tarifaço de Trump!”. Organizar imediatamente as manifestações em todo o país, sob o programa próprio da classe operária. É parte desse movimento a defesa da Venezuela e de Cuba, que se acham também sob ataque dos Estados Unidos. Nesse mesmo sentido, cabe à classe operária e aos demais explorados combaterem as guerras de dominação.
O Partido Operário Revolucionário (POR) defende que as centrais, sindicatos e movimentos se libertem do palavreado governista e convoquem um Dia Nacional de Luta, com paralisação, como ponto de partida para a constituição de uma frente única anti-imperialista.