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01 ago 2026
A crise mundial da imigração tende a se agravar
O capitalismo em decomposição provoca gigantescos deslocamentos de massas humanas
A defesa dos imigrantes depende da organização e da luta de classes do proletariado
Ceuta é um pequeno enclave da Espanha no norte da África. Estimam-se 83.600 moradores. No entanto, mais uma vez ganhou notoriedade pelo fato de milhares de marroquinos invadi-lo à procura de obter acesso à Europa por meio da Espanha. Trata-se da rota mais curta entre o país marroquino e o enclave espanhol. A via terrestre o separa aproximadamente por 8 km. Esse é o motivo pelo qual a Espanha montou um rigoroso sistema de vigilância, resguardada por autoridades policiais de ambos os países. A cerca fronteiriça, protegida por policiais, alcança “10 metros nas partes mais vulneráveis”. A fronteira marítima, apesar de oferecer maiores perigos à vida dos imigrantes, é utilizada para romper o cerco ao deslocamento humano.
Em desespero, os imigrantes arriscam as vidas enfrentando as correntes marítimas a nado ou com boias infláveis. Uma vez ultrapassadas as barreiras anti-imigração, contam com a possibilidade de serem aceitos pela Espanha, e se não têm como sobreviver nesse país, espalham-se pela União Europeia.
Segundo o governo espanhol, 50 mil imigrantes chegaram a Ceuta, mas as autoridades locais admitiram 60 mil. No enfrentamento das águas e nos embates fronteiriços, se constatou 57 mortos. Em maio de 2021, aproximadamente 10 mil pessoas se aventuraram a chegar em Ceuta. Confirmaram-se 3 mortos. Como se vê, os acontecimentos recentes foram mais contundentes. A massa jovem, principalmente, que enfrentou as águas marítimas, expôs o agravamento da questão migratória.
Na primeira metade de junho, em Belfast (Irlanda do Norte), manifestantes bloquearam ruas, depredaram imóveis, incendiaram carros, atacaram residências e confrontaram a polícia, em resposta a uma violência por esfaqueamento desfechada por um refugiado do Sudão contra um irlandês. Desencadeava-se mais um movimento anti-imigrante. Observa-se que desde 2024 vem recrudescendo ações contra imigrantes.
O que se passa na Irlanda é uma extensão dos conflitos raciais que têm marcado politicamente o Reino Unido. Bastou uma falsa informação sobre o assassinato de três crianças em Southport para se acusar um imigrante mulçumano e, assim, desencadear uma onda de protestos anti-islâmicos. Tanto na Inglaterra quanto na Irlanda do Norte, sindicatos e organizações políticas saíram em defesa dos imigrantes, levantando bandeiras contra a xenofobia.
Na África do Sul, o fim do regime do apartheid em 1994 não eliminou as discriminações raciais e a xenofobia. Em 2008, emergiu uma onda de violência contra imigrantes provenientes de Moçambique, Somália, Maláui e Zimbábue. Foram assassinados cerca de 60 imigrantes e expulsos milhares. Abriu-se caminho para em 2021 surgir o movimento “Operação Dudula” (Operação de Expulsão), cuja bandeira principal foi a de deportação de imigrantes ilegais. Montou-se um tipo de força voltada a intervir nos bairros miseráveis. A violência xenófoba avançava sob o regime democrático-burguês, que substituiu o do apartheid. Em 2026, no mês de abril, reanimaram-se os protestos anti-imigrantes em Pretória e Joanesburgo. Dois meses depois, o movimento “March and March” (Marchar e Marchar), criado em 2025, voltou à carga contra os imigrantes e estipulou a data de 30 de junho como um marco de expulsão de imigrantes ilegais.
Um dos pilares da política do governo Trump se assenta no combate à imigração e aos milhões de imigrantes que se encontram inseridos no país. A crise social na América Latina, em particular, potenciou o fluxo migratório na fronteira com o México em 2021. O governo de Biden recrudesceu as medidas repressivas, mas Trump tem ido às últimas consequências com as prisões, deportações e proibições. Deu poderes ditatoriais ao ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega). O importante, no entanto, está em que tanto o governo democrata quanto o republicano armaram uma ofensiva contra os imigrantes. Basta ver que em seu mandato Biden deportou e impôs retornos de cerca 1,5 milhão de imigrantes. Há números mais amplos que indicam 4,4 milhões de repatriações (deportações formais, devoluções nas fronteiras, expulsões durante a pandemia). Trump, até julho de 2026, contribuiu com 600 mil. Sob a figura de “autodeportações”, foram 1,9 milhão. A operação policial do ICE no estado de Minnesota, ao resultar na morte de dois americanos, deu lugar, no final de janeiro, a manifestações e greves contra a política de Trump e as ações repressivas da polícia imigratória. Assim como as contra manifestações xenófobas na Irlanda e Inglaterra, as dos Estados Unidos indicam o caminho da luta de classes para enfrentar as bárbaras manifestações do capitalismo em decomposição.
Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o número de pessoas que sofreram deslocamentos forçados passou de cerca de 43 milhões em 2010 para 117,8 milhões no final de 2025.
As particularidades de cada região e país não ocultam a base comum de suas causas. De Ceuta à África do Sul e desta aos Estados Unidos, passando pelos vários continentes, se têm como causas principais da imigração o desemprego, a miséria e a fome que atingem uma vasta camada da população mundial. As guerras e os conflitos armados intensificam e ampliam a crise social que já é gigantesca. São os casos da guerra na Ucrânia e no Irã, e do massacre na Faixa de Gaza, Cisjordânia e Líbano.
O atraso econômico que prevalece na maioria dos países impossibilita que os Estados nacionais respondam minimamente às causas sociais da imigração. Estão submetidos à dominação, ao saque e às imposições político-militares exercidos pelo imperialismo, que conforma a ultraminoria de países capitalistas altamente desenvolvidos. São justamente os saqueadores do mundo que promovem as guerras entre os Estados e gestam as guerras civis no seio das nações oprimidas.
Milhões e milhões que só têm a sua força de trabalho para sobreviver recorrem à migração voltada aos países desenvolvidos, que subordinam as condições econômicas e sociais dos países atrasados e que são destinados a manter-se como vassalos do capital imperialista. Não por acaso, a juventude operária e camponesa é que reflete na carne as condições do baixo desenvolvimento econômico e das travas impostas por um punhado de potências. Em seus países, está condenada a padecer da miséria e a sofrer todo tipo de enfermidade social. Ao recorrer aos países avançados em busca de trabalho, depara-se com um capitalismo em decomposição, que já não pode desenvolver amplamente as forças produtivas, que dita as guerras comerciais e que impulsiona a escalada militar.
Os acontecimentos em Ceuta são mais um sinal de que o regime social capitalista não tem nada a oferecer às massas trabalhadoras e, em particular, à juventude a não ser baixos salários, subemprego, desemprego, miséria, criminalidade, repressão policial e guerras de dominação. Está aí por que a crise imigratória não é uma exceção que atinge este ou aquele país. Ao contrário, perpassa todos os continentes. Os mais atrasados é que pagam um preço maior pelo atraso econômico e por suas sujeições às potências imperialistas.
A emersão do racismo e de toda sorte de manifestação xenófoba vêm crescendo em uma parcela da população inconsciente das causas e sujeita à decadência. Setores da burguesia e da pequena burguesia desesperada alimentam as tendências políticas fascistizantes, que se abrigam no seio do Estado burguês. O movimento anti-imigratório, principalmente na Europa, é encarnado pelas correntes nacionalistas de ultradireita, a exemplo da AfD (Alemanha), Reagrupamento Nacional (França), Irmãos da Itália, Partido da Liberdade (Países Baixos), entre outros. A AfD faz explícita defesa do nazismo. É sintomático que a Itália, dirigida por um governo de ultradireita, reagiu prontamente à crise em Ceuta, acusando a Espanha de facilitar a ação dos imigrantes e ameaçando com a possibilidade de romper o Acordo de Schengen, que regula a livre circulação na União Europeia.
As divergências que vêm se ampliando nas vísceras da burguesia e dos Estados burgueses sobre o fenômeno da imigração evidenciam a incapacidade da classe capitalista em encontrar uma via de reformas progressivas que atenuem o choque entre as nacionalidades e integrem as populações mais atingidas pelo esgotamento histórico do capitalismo da época imperialista. Ao mesmo tempo em que tais contradições colocam para a classe operária a necessidade de reagir com seu programa transformador, põe à luz do dia a gravidade da crise mundial de direção revolucionária.
Os retrocessos históricos das últimas décadas do pós Segunda Guerra resultaram de derrotas profundas da classe operária internacional. É o que se constata com o processo de restauração capitalista e bloqueio às revoluções proletárias. O essencial, no entanto, se encontra no processo de desintegração do capitalismo e de avanço da barbárie social. Essas condições objetivas são determinantes para o proletariado recorrer ao caminho da revolução social. Cabe à vanguarda com consciência de classe retomar as conquistas do passado e impulsionar programaticamente a construção dos partidos marxista-leninista-trotskistas, como parte da reconstrução do Partido Mundial da Revolução Socialista, a IV Internacional.