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26 set 2026
Editorial do jornal Massas nº 773
O discurso de Donald Trump ameaçando aniquilar a República Islâmica do Irã e derrubar o regime castrista de Cuba, de um lado, e a retirada da maior parte das delegações no momento do pronunciamento de Benjamin Netanyahu sobre o objetivo de destruir toda a resistência do povo palestino, de outro, marcaram a impotência da ONU.
A desenvoltura com que Trump expôs a sobreposição do militarismo à diplomacia correspondeu precisamente ao prolongamento da guerra na Ucrânia e da que atinge o Irã no Oriente Médio. Como parte dessa realidade militarizada, comparece a persistência da intervenção do Estado de Israel na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no Líbano.
Trump colocou na tribuna a presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, para mostrar uma de suas vitórias bem-sucedida na América Latina. Com essa bandeira colonialista, os Estados Unidos prometeram como próximo passo derrubar o regime cubano. Trump se utilizou dos governos serviçais latino-americanos que compuseram o denominado “Escudo das Américas” para frisar sua estratégia intervencionista em nome da guerra às organizações narcotraficantes, tipificadas como terroristas. A reunião de governos de ultradireita e direita que alcançaram a maioria dos países da América Latina em seu entorno serve de arma política para ampliar o raio de ação das forças militares norte-americanas no continente.
O chefe do imperialismo estadunidense sentiu-se seguro e confortável para ditar a ordem de que a China não poderá ir muito além do que já foi em sua penetração econômica e política no hemisfério ocidental. Fez questão de propagandear a capacidade militar dos Estados Unidos muito superior a qualquer outra potência. É com ela que arrasou o regime nacionalista chavista e retomou o domínio sobre a sua vasta reserva petrolífera.
A 81ª sessão da ONU, realizada em Nova York, foi escolhida como um momento propício para anunciar um acordo com a Dinamarca sobre a anexação da Groenlândia. A capitulação honrosa do governo dinamarquês foi anunciada como a manutenção da ilha do Ártico pertencente ao reino da Dinamarca e a garantia do direito dos groenlandeses à autodeterminação. Os Estados Unidos, no entanto, terão o direito de resguardar o território e seu mar. Trump tem em seus cálculos fortalecer a base espacial de Pituffik e instalar várias outras bases militares. A Rússia e a China ficam expressamente proibidas de se relacionarem econômica e militarmente com a Groenlândia sem a permissão dos Estados Unidos. As riquezas naturais, portanto, passam a ser fontes norte-americanas de exploração. Estas condições garantem a anexação real e a manutenção formal da soberania do território.
Um outro acontecimento que expressa a profundidade da desintegração mundial da ordem edificada no pós-guerra foi a reunião de representantes da União Europeia com o governo do Canadá, que tem sido acossado pela estratégia trumpista das anexações. Em nome do multilateralismo, a presidenta da União Europeia, Ursula von der Leyen, promoveu um encontro com o 1º Ministro canadense, Mark Carney, para discutir a proposta de uma Aliança Internacional OceanEye para o Sistema Global de Observação do Oceano (GOOS). Trump se pôs furioso em seu discurso e ameaçou o país vizinho com recrudescimento da guerra comercial. A ofensiva anexionista dos Estados Unidos ao Canadá se completa com as medidas colonialistas dirigidas ao México.
Vários foram os pronunciamentos divergentes com o conteúdo belicista de Trump. No fundamental, condena-se o unilateralismo e defende-se o multilateralismo. Na prática, a propaganda da coexistência pacífica e de uma diplomacia econômica multilateral se desfaz em boas intenções e resulta em cinismo e demagogia. Os Estados Unidos estão convencidos e empenhados de que sua hegemonia depende do uso de seu poderio econômico-militar.
O governo Lula se apresentou no campo das vozes críticas à ruptura do multilateralismo. Repetiu os argumentos em torno ao respeito da soberania nacional, da não intervenção, da não interferência nos assuntos internos e da procura de soluções consensuais pela via de acordos.
O Brasil se tornou um alvo da guerra comercial devido ao crescente entrelaçamento econômico com a China. As exigências dos Estados Unidos implicam a concessão monopolista das fontes de matérias-primas e abertura de mercado para determinados produtos norte-americanos. No fundo, Trump objetiva afastar a China da América Latina, o que depende em boa medida da subordinação do Brasil. O Escudo das Américas conta com economias mais avançadas latino-americanas, como da Argentina e Chile, acrescido da Venezuela e Colômbia.
O discurso de Lula foi um pedido de lamentação para que Trump não interfira nas eleições presidenciais do Brasil, quando influencia grandemente utilizando-se da candidatura de Flávio Bolsonaro. A 81ª reunião da ONU se realiza a poucos dias das eleições brasileiras. Não há dúvida de que a ultradireita bolsonarista manteve a sua potencialidade amparada em amplos setores do agronegócio e do capital comercial graças à dependência histórica da classe capitalista brasileira diante dos Estados Unidos.
A China decidiu pela discrição. Evitou aparecer como a potência econômica que rivaliza com os Estados Unidos e se encontra em meio ao furacão da crise mundial. Xi Jinping delegou ao seu vice-presidente, Han Zheng, a utilização da tribuna, para advogar pela paz mundial, o que implica soluções dos conflitos negociadas no marco do desenvolvimento global. Estados Unidos e China aguardaram o pronunciamento de Trump, para logo após realizarem uma reunião entre os dois presidentes. Xi Jinping foi recebido com distinção na Casa Branca. As tratativas, no entanto, ficaram resguardadas pelo sigilo. É o que tudo indica. A decisão do prolongamento do acordo, que vencia em novembro, para janeiro tão somente adiou o acirramento da guerra comercial. A disputa pelas fontes de matérias-primas e pela liderança do controle da alta tecnologia, tendo à frente um horizonte de crise no interior da projeção da Inteligência Artificial, indica que a rota de colisão dos Estados Unidos com a China pressupõe o enfrentamento militar. Nesse exato momento, ressurgiu a discussão sobre as ações dos Estados Unidos voltadas a controlar militarmente o espaço sideral. O fato é que a China não pode ceder à guerra comercial de Trump e os Estados Unidos não podem permitir o avanço da economia chinesa no seio da economia mundial. Essa é a contradição principal no quadro geral dos conflitos que se avultam com o prolongamento das duas guerras, na Europa e no Oriente Médio.
As relações conflituosas dos Estados Unidos com a China, principalmente desde 2018, se potenciaram mais e mais, sem que houvesse possibilidades de acordos que ajustassem os interesses das duas economias. A crise mundial de 2008-2009 foi contornada momentaneamente, para reacender nos últimos anos. O baixo crescimento e a tendência predominante ao descenso econômico inviabilizam acordos de convivência pacífica entre capitais e Estados nacionais. É nesse terreno que eclodiu a guerra na Ucrânia, a intervenção colonialista de Israel e a guerra dos Estados Unidos contra o Irã. A economia norte-americana não tem como escapar de uma nova crise como a de 2008, ou pior ainda. A China já não pode sustentar as altas taxas de crescimento e enfrenta a manifestação da anarquia da produção social.
As potências econômicas estão envolvidas em um dos maiores patamares da dívida mundial. Estima-se que a soma das dívidas públicas de US$ 99,2 trilhões e da dívida privada US$151,8 trilhões, alcançando o estratosférico volume de US$ 251 trilhões, não só obstaculiza o crescimento como também alimenta as tendências desintegradoras da economia mundial. A dívida federal dos Estados Unidos saltou de US$ 36,2 trilhões para US$ 40 trilhões durante o segundo mandato de Trump. Parte significativa se deve ao impulso do complexo militar. É o que vem ocorrendo na União Europeia, e com a China e a Rússia. Essas travas ao desenvolvimento econômico colocam em contraposição os Estados nacionais que condicionam a dinâmica da economia mundial. Ao invés de impulsionar as forças produtivas, provocam destruição massiva, como se verifica abertamente nas duas guerras vigentes. Por mais que a maioria das nações queira a coexistência pacífica, imperam as tendências bélicas e o desabamento das estruturas edificadas após a Segunda Guerra.
O resultado catastrófico recai sobre a classe operária e a maioria oprimida, bem como sobre os países semicoloniais. O retrato da ONU se decompondo, distintamente de quando foi criada em 1945 como um centro de reconstrução do pós-guerra, sob a condução dos Estados Unidos, demonstra a falência histórica da burguesia mundial e os impasses insolúveis da ordem imperialista. Não pode haver dúvida de que a ofensiva militarista dos Estados Unidos se sobreporá com mais contundência ainda à pretendida e falsa coexistência pacífica.
É nessas condições que emerge o programa da revolução social e a necessidade de superar a crise de direção construindo os partidos marxista-leninista-trotskistas como parte da reconstrução do Partido Mundial da Revolução Socialista, a IV Internacional.