• 24 jun 2025

    CERQUI: Estados Unidos atacam o direito de autodeterminação da nação oprimida iraniana

Comitê de Enlace pela Reconstrução da IV internacional (CERQUI)

Carta à classe operária, aos demais trabalhadores e aos povos oprimidos

Estados Unidos atacam o direito de autodeterminação da nação oprimida iraniana

Não à destruição do programa nuclear do Irã!

Não à derrubada do regime nacionalista pelas mãos dos Estados Unidos, Israel e potências europeias aliadas!

Libertar o Oriente Médio da dominação norte-americana e de seus aliados

Organizar e erguer o movimento anti-imperialista pelo fim da intervenção militar de Israel e Estados Unidos na Faixa de Gaza e no Irã

O imperialismo norte-americano orientou o Estado sionista de Israel a iniciar o “trabalho sujo”, segundo os termos pronunciados pelo primeiro Ministro da Alemanha, Friedrich Merz. O imperialismo como um todo e seus serviçais dos países semicoloniais acham que agora Trump fará o trabalho limpo, porque livraria o Oriente Médio dos perigos nucleares, que representaria o Irã e seu regime teocrático.

Não há como ocultar a farsa de que os Estados Unidos estariam apenas auxiliando o Estado sionista e o seu “regime democrático”. O envio dos Bombardeiros B-2 e a detonação das miraculosas superbombas GPU-57 sobre Fordow, Natanz e Isfahan alarmaram os hipócritas pacifistas e legalistas.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou para o perigo de “ascender um fogo que ninguém poderá controlar”. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, deu o sinal para que o governo sionista de Benjamin Netanyahu iniciasse o “trabalho sujo”, acionando o alarme com o aviso de que o Irã estava prestes a alcançar a bomba atômica. Embora não apresentasse comprovação, os bombardeios das Forças de Defesa de Israel foram apresentados como um imperativo “existencial” iminente.

Mas, somente os Estados Unidos poderiam varrer o programa nuclear do Irã, de forma que os iranianos tivessem de capitular e aceitar incondicionalmente as condições prescritas pela Casa Branca. Israel elevou a seu ponto mais alto de agressão ao Irã não só eliminando importantes figuras governamentais, dizimando os quadros de cientistas e destruindo bases de defesa do país, mas também bombardeando as usinas nucleares.

Trump procurou isentar os Estados Unidos como a principal força a declarar guerra ao Irã, dispensando formalidades legais. O presidente americano autorizou o governo Netanyahu a começar o trabalho sujo. Israel tomou a dianteira para ocultar a declaração de guerra pelo imperialismo norte-americano. Facilitou às potências europeias apoiarem a destruição das usinas nucleares iranianas como se fosse para garantir a existência do Estado de Israel.

O terreno foi preparado pelos Estados Unidos. Trump apresentou pontos de um “acordo” que acabava com o aparato nuclear estabelecido e bloqueava o processo técnico-científico nacional do Irã. Essas condições vinham acompanhadas da redução de sua potencialidade militar, limitando a capacidade de lançamento de mísseis. Nesse marco, o governo iraniano teria também de romper todas as relações com o movimento de resistência do povo palestino. Trump montou a farsa diplomática em torno à discussão sobre um acordo que evitasse os ataques de Israel e dos próprios Estados Unidos às instalações nucleares do Irã. Deu um prazo para o governo aceitar as condições. Não esperou a continuidade das negociações.

Israel alcançou uma capacidade militar muito superior à de qualquer país do Oriente Médio, mas não tem como impor tais condições tipicamente imperialistas. O desespero em anexar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia expõe as necessidades econômicas de um país forjado artificialmente e totalmente dependente dos Estados Unidos. De forma que os bombardeios israelenses no Líbano, Síria e Iêmen são expressão da ampla implantação das forças militares dos Estados Unidos na região.

Desde o final de 1950, a potência norte-americana impulsionou a ocupação militar no Oriente Médio como parte de seu expansionismo bélico do pós-Segunda Guerra. Conta com 19 bases altamente tecnificadas e 40 mil soldados. Quebrou a resistência do nacionalismo árabe que se potenciou também na década de 1950, com a vitória do Egito na guerra do Canal de Suez. A Inglaterra e França cederam lugar aos Estados Unidos que protagonizavam a Guerra Fria e disputavam influência no Oriente Médio com a ex-URSS. As inúmeras guerras posteriores à de Suez foram marcadas pela intervenção norte-americana, cujos resultados favoreceram, em última instância, à ofensiva militarista à América do Norte no Oriente Médio.

Desde 1948, Israel passou a ser um dos fatores mais importantes nos conflitos e guerras na região e se consolidou como um enclave dos Estados Unidos servindo aos seus objetivos imperialistas. O nacionalismo árabe, que chegou a almejar a unidade dos Estados, atingiu seu esplendor com o panarabismo na década de 1960. Perdeu consistência nas décadas seguintes, dissolveu-se e os Estados Unidos se impuseram.

Esse percurso esteve profundamente marcado pelas guerras de 1948,1956 1967, 1973, 1980, 1982, 1990, 2003 e 2006. A intervenção genocida de Israel na Faixa de Gaza, os ataques ao Líbano, à Síria, ao Iêmen e ao Irã foram calculados de acordo com os objetivos dos Estados Unidos nas condições de potenciação da guerra comercial desencadeada por Trump e voltada principalmente contra a China. De forma que os bombardeios contra o Irã para destruir seu complexo nuclear e suas bases de mísseis balísticos são parte da ampla conflagração impulsionada pela intervenção do Estado sionista na Faixa de Gaza.

A posição do Irã de avisar os Estados Unidos que faria um ataque à base aérea de Al-Udeit, no Catar, de forma que não fosse um ato de guerra, era o que Trump esperava para decidir pela suspensão dos bombardeios e pela busca de um “acordo” sobre a questão nuclear. Ficaram as dúvidas, se as destruições das centrais nucleares de Fordow, Isfahan e Natanz chegaram ao ponto pretendido.

Trump conseguiu unir as potências sob a alegação de que se tratava de eliminar o maior dos perigos no Oriente Médio, que seria um Irã detentor da bomba atômica. Mesmo a maior parte dos opositores às suas medidas de guerra comercial generalizada e ao objetivo de anexar a Faixa de Gaza acabou por apoiar os ataques com os B-2.

As críticas legalistas de que Trump estaria violando leis internacionais já não têm a menor importância. Desde o desconhecimento pelos Estados Unidos da resolução do Conselho de Segurança da ONU, para que se obtivessem provas seguras de que o Iraque detinha armas de destruição massiva, esse órgão criado pelas potências, sob a máscara da cooperação e pacificação entre os povos, se desmoralizou definitivamente. O Iraque foi arrasado e o seu regime nacionalista varrido. Os Estados Unidos usaram o Iraque na sangrenta guerra contra o Irã, que durou de 1980 a 1988, para depois destroçá-lo. Por meio de guerras e fortalecimento de bases militares no Oriente Médio, os Estados Unidos impuseram as relações econômicas e pulverizaram o nacionalismo árabe. Estabeleceram uma hegemonia a ser defendida a todo o custo.

A resistência do Irã, desde a Revolução Islâmica de 1979, em manter sua independência perante os Estados Unidos e demais potências, sustentou o nacionalismo. Os Estados Árabes se submeteram um após outro aos ditames norte-americanos e abandonaram o povo palestino à sua própria sorte. De fato, passaram a colaborar com o esmagamento da Faixa de Gaza e invasão colonial da Cisjordânia. O nacionalismo iraniano, ao contrário, se apoiou na resistência que se despontou e se organizou no Líbano e na Síria, embora fossem adversários no campo islâmico, no qual se separam xiitas e sunitas.

No transcurso dos acontecimentos da intervenção do Estado sionista de Israel na Faixa de Gaza, se evidenciou que se tratava de uma guerra contra o Irã, a única força disposta a sustentar a resistência dos palestinos e da fração libanesa nacionalista. Mas, sua capacidade já se encontrava debilitada com a decomposição do regime herdeiro do partido nacionalista e panarabista, Baath – que almejou criar uma República Árabe Unida (RAU) – mantido pela família al-Assad. A derrocada final do governo al-Assad, a quebra do Hezbollah e o fortalecimento do governo pró-imperialista libanês permitiram a vitória do cerco sionista ao Hamas.

Esse conjunto de acontecimentos criou as condições para os Estados Unidos se colocarem como a força capaz de romper a resistência iraniana. A Rússia se recolheu com a queda do regime sírio. Está concentrada na guerra com a Ucrânia. Assiste à União Europeia e ao Reino Unido se rearmarem e fortalecerem a OTAN. A China não pôde ir adiante em sua meta de penetração no Oriente Médio, aproximando a Arábia Saudita com o Irã. Tem diante de si o recrudescimento das forças econômicas em descenso e a necessidade de tomar parte da escalada militar encabeçada pelas potências imperialistas. Por enquanto, os Estados Unidos estão com as mãos livres para realizar um ataque brutal à soberania do Irã e para continuar a ditar o rumo das relações conflituosas no Oriente Médio.

No entanto, o imperialismo norte-americano não tem como estabilizar a região, que permanecerá conflagrada pela guerra de Israel contra a resistência palestina. A tendência é de aumentar o descontentamento e a revolta das massas árabes. Os Estados Unidos e aliados europeus não têm nada a oferecer a não ser aumentar o saque e impor duras condições comerciais.

A guerra que se originou na Faixa de Gaza e chegou ao Irã é parte da crise mundial do capitalismo, que vem se desenvolvendo desde a década de 1970. Seria bom para os Estados Unidos, se Trump pudesse concentrar a batalha contra a ascensão da China. Mas, o caminho da confrontação continua passando pela guerra na Ucrânia, portanto, na Europa, e a guerra na Faixa de Gaza-Irã, no Oriente Médio. As forças produtivas ultrapotentes, mas encarceradas pelas fronteiras nacionais, levam aos choques comerciais e tecnológicos, e às disputas pelas fontes de matérias-primas entre as potências, envolvendo de conjunto as nações semicoloniais.

Esteve bem claro que a China e a Rússia nada puderam fazer contra a destruição do sistema nuclear do Irã, apesar de condená-la no Conselho de Segurança da ONU. Resguardam posição diante dos perigos de estender as guerras ainda circunscritas regionalmente para o âmbito mundial. O problema está em que as tendências bélicas estão em uma escalada sem precedentes após a Segunda Guerra. A tarefa de combater as guerras de dominação e de interromper o avanço do militarismo imperialista depende da classe operária e da maioria oprimida tomá-la em suas mãos.

É o momento de cavar trincheiras operárias e populares, que começam com as manifestações e com as respostas opostas às ações do imperialismo. O Irã tem de ser defendido incondicionalmente. Somente o seu povo pode decidir sobre o destino de seu programa nuclear e de seu regime político. Inclusive obter a bomba atômica, se assim decidir. A resposta do Irã foi importante e mostrou a vulnerabilidade do sistema de defesa do inimigo. Essa resposta gerou um grande entusiasmo nos povos árabes que se mobilizaram, e que se refletiu em todo o mundo. A ameaça de terror de Trump chegou até o presidente da República do Irã e até o povo de Teerã. A resposta operária e popular se baseia na realidade objetiva que evidencia o lugar do imperialismo na crise do Oriente Médio como força externa opressora. Força que tem militarizado a região com suas dezenas de bases militares e que apetrecharam o Estado sionista de Israel com os armamentos mais letais, inclusive com a bomba atômica.

O imperialismo e seu braço armado sionista serão limitados e derrotados em um processo revolucionário que se desponta, ainda que tenuemente e em ritmo vagaroso. Emerge do longo processo de revoltas e guerras o programa estratégico do proletariado mundial, que é o programa da revolução social e como sua expressão particular os Estados Unidos Socialistas do Oriente Médio. Evidentemente, as gigantescas dificuldades em unir a maioria oprimida em torno ao programa do proletariado se encontram na crise de direção. Todas as forças políticas que se reivindicam do fim do capitalismo e da edificação do socialismo têm de se colocar urgentemente no sentido de um movimento pela reconstrução do Partido Mundial da Revolução Socialista, a IV Internacional.

Viva a resistência anti-imperialista das nações oprimidas!

Pôr em pé a frente única anti-imperialista!