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19 jul 2025
Editorial do jornal Massas nº 744
Ataque frontal dos Estados Unidos ao Brasil
Somente a classe operária pode defender a soberania nacional
A guerra comercial dos Estados Unidos, agora, atinge ampla e profundamente a economia brasileira, caso Trump alcance o seu objetivo. A tarifa de 50% destroçará o volume, o valor e a variedade das exportações aos Estados Unidos. Inicialmente, como parte do plano geral de elevação tarifária, lançado nos primeiros dias da posse do governo republicano, o Brasil se viu diante de um aumento de 10% generalizado e de 25% sobre o aço e alumínio. Bastavam essas taxas para afetar sensivelmente as atividades econômicas dependentes do comércio exterior com os Estados Unidos. O governo Lula se dispôs, cordialmente, a negociar. Realizou inúmeras reuniões com a representação norte-americana e nada foi alterado.
A primeira investida contra o Brasil, nos marcos da investida mundial, na realidade, correspondia a um ensaio. Trump tinha em seus cálculos que o Brasil fazia e faz parte da estratégia da guerra comercial, que tem como centro a China. Como maior economia da América Latina, ao lado do México e Argentina, teria de se sujeitar e alinhar às mudanças na política exterior dos Estados Unidos, que tomaram forma e conteúdo mais agressivos com a derrocada do democrata Biden e a volta de Trump ao poder. O conflito com o México continua a sua escalada. A Argentina se adaptou imediatamente, sob a política fracamente antinacional de Milei. O que não quer dizer que Trump esteja totalmente satisfeito com a burguesia argentina.
Recentemente, em 9 de julho, o Brasil se viu envolvido em uma segunda fase do plano do imperialismo norte-americano. A carta que taxava o Brasil em 50% sequer seguiu os canais diplomáticos. Chegou ao governo Lula por meio informal da rede Truth Social. O desprezo com o governo Lula expressou de fato a prepotência dos Estados Unidos perante o Brasil.
Distintamente do México e da Argentina, o Brasil como país latino-americano ocupa um importante lugar na organização e funcionamento do BRICS. Essa posição foi alcançada precisamente porque o Brasil estabeleceu e desenvolveu amplas relações comerciais com a China, desde o momento em que nesse país asiático se iniciou o processo de restauração capitalista. O mercado chinês, finalmente, se tornou uma âncora para as exportações brasileiras e, consequentemente, se abriu como um importante canal de importação de manufaturas chinesas. A economia brasileira, grandemente dependente da exportação de produtos agrários e minerais (commodities), potenciou suas forças produtivas nas condições de projeção da China como a segunda potência econômica mundial. E, concomitantemente, nas de declínio da hegemonia norte-americana.
Nessa equação contraditória, é preciso considerar a vitória da contrarrevolução que levou ao desmoronamento da URSS e colocou a Rússia em uma posição de choque com os interesses do imperialismo norte-americano e europeu na Eurásia. A guerra na Ucrânia emergiu como o acontecimento militar mais importante após a Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos passaram a considerar a China e a Rússia como os dois rivais mais relevantes, nos marcos de seu declínio.
A presença dessas duas potências militares no BRICS estabelece uma linha divisória das confrontações mundiais. O G7 e o G20 vêm perdendo importância. O BRICS foi ampliado e vem se elevando desafiadoramente à hegemonia dos Estados Unidos estruturada desde os acordos de Yalta e Potsdam. Não por acaso, Trump se enraiveceu com a discussão no BRICS em torno ao poder do dólar sobre as relações mundiais e o seu manejo imperial pelos Estados Unidos.
O apoio de Lula a essa movimentação conduzida pela China tem sido condenado pelo imperialismo norte-americano. Em uma escala mais ampla, Trump inclui em seu arsenal o fato do governo Lula não apoiar o cerco da OTAN à Rússia e condenar como genocídio a carnificina do povo palestino desfechada na Faixa de Gaza por Israel com o franco apoio dos Estados Unidos. Nessa mesma linha, o governo brasileiro censurou o bombardeio dos Estados Unidos e Israel ao Irã. Esses posicionamentos foram comuns ao da China e Rússia, e de parte de outros membros do BRICS. Sob o governo de Trump, se tonou ainda mais intolerável que o Brasil não se alinhe clara e absolutamente à estratégia norte-americana para o enfrentamento da crise mundial do capitalismo. O modelo que cai perfeitamente à bandeira “América em primeiro lugar” é o do servilismo do tipo Milei na Argentina.
O governo Lula, distintamente do governo Bolsonaro, deu preferência aos vínculos com o BRICS, não porque se opõe aos Estados Unidos por ideologia ou princípio anti-imperialista, mas sim porque a China passou a ser mais favorável aos interesses econômicos do Brasil. A burguesia brasileira, por sua vez, aceitou esse curso, apesar de acidentado, devido ao fato de que a maior parte de sua exportação é consumida pelo gigantesco mercado chinês.
Não há dúvida de que o crescimento dos investimentos de capitais chineses no Brasil e na América Latina tem sido mais favorável às suas forças produtivas do que os dos Estados Unidos. Não há como negar que a Nova Rota da Seda vem despertando os interesses de parte da burguesia brasileira e latino-americana. A expansão econômica e comercial da China em todo o mundo se choca com a ordem mundial subordinada aos fundamentos econômicos dos Estados Unidos. Essa é a base do acirramento da guerra comercial conduzida por Trump.
O fato de a ultradireita ter perdido as eleições em 2022 para um expoente do nacional-reformismo, ainda que esfarrapado, desconcertou os passos entre os Estados Unidos e o Brasil. A defesa que Trump faz de Bolsonaro e das suas hostes contra o processo movido pelo Supremo Tribunal de Federal (STF), que caminha para concluir em condenação e prisão do ex-presidente, é a forma de incentivar e erguer uma fração da grande burguesia contra o governo Lula. Nada melhor do que impor a taxa de 50% às exportações que atinge, em grande medida, a agropecuária, o agronegócio e, portanto, a fração burguesa ruralista.
Trump procura potenciar a crise política, que já grande, ampliando as divisões interburguesas, que caracterizaram a polarização nas últimas eleições. O bolsonarismo se identificou com os ataques de Trump e está arcando com a justa pecha de “traidores da Pátria”. Tudo indica que não há possibilidade de reversão da condenação de Bolsonaro. Esse resultado, certamente, esteve nos cálculos de Trump.
É sintomático que ao lado da megataxação, os Estados Unidos iniciaram uma investigação comercial contra o Brasil. O que inclui o conflito em torno à regulamentação das Big Techs. Agora expandido para o sistema de pagamento PIX. A amplitude das exigências do imperialismo norte-americano indica que Trump está empenhado em levar ao extremo a rota de colisão dos Estados Unidos com o Brasil. O aprofundamento da crise política é favorável aos objetivos de Trump e ao avanço da reorganização da direita nas condições de enfraquecimento da ultradireita.
Lula e seus partidários recorreram à bandeira burguesa de “união nacional”. A possibilidade de potenciar ainda mais a divisão interburguesa é grande. Não por acaso, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deu início a um movimento paralelo junto aos grandes capitalistas e à embaixada dos Estados Unidos. Lula criou o “comitê de governo”, centralizado por Alckmin, para dar expressão à “união nacional”. As associações empresariais recomendaram que se evite retaliação. Representantes das centrais sindicais disseram preocupadas com os empregos. Não se chegou, assim, a nenhum plano de negociação com o governo norte-americano. Os primeiros passos dão a entender que a tormenta crescerá na medida em que se aproximar a data fatídica de 1 de agosto.
O pronunciamento de Lula à nação pareceu firme e brando. Encurralado por tantas pressões, o governo não teve nada a oferecer aos exportadores, que mostram os números da crise que está por vir e as consequências que recairão sobre os empregos. O ataque à soberania do Brasil é flagrante. A imposição das taxas alfandegárias golpeia a economia nacional. A exigência de livrar Bolsonaro da acusação de tentativa de golpe de Estado resulta da intervenção de Trump na política interna do Brasil. As consequências econômicas recairão, sobretudo, nas costas dos trabalhadores. Esse problema, de conjunto, está nas mãos da burguesia e de seus governos.
A classe operária e os demais explorados estão à margem desses terríveis acontecimentos. Era para as centrais, sindicatos e movimentos recorrerem à mobilização e organização independente dos explorados perante as manobras dos governos, dos partidos burgueses e das associações empresariais. As direções sindicais burocráticas e colaboracionistas aguardam as ordens do governo Lula, do PT, PSOL e outros aliados. Estão alinhadas por detrás da bandeira burguesa de “união nacional” e esperam a chegada do anunciado terremoto. No entanto, somente a classe operária pode se contrapor aos ataques frontais do imperialismo norte-americano e defender a soberania nacional.
A burguesia dependente que é dos Estados Unidos não atacará seus capitais que a século saqueiam a semicolônia brasileira. Não pretende que o governo Lula sequer se utilize do “direito à reciprocidade”.
Ao contrário, o programa da classe operária é o de expropriação, nacionalização e transformação da propriedade privada dos meios de produção em propriedade social. Esse fundamento básico da revolução social corresponde ao lugar do proletariado como classe capaz de se contrapor a toda forma de opressão. O Brasil está diante da ação e dos métodos da opressão imperialista. A tarefa da vanguarda com consciência de classe é a de lutar no interior dos sindicatos e movimentos para pôr em pé a frente única anti-imperialista.
O Partido Operário Revolucionário defende que as centrais e sindicatos convoquem imediatamente um Dia Nacional de Luta, que sirva de ponto de partida para organizar o combate dos explorados sobre a base de um programa e de uma estratégia revolucionária próprios.