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02 ago 2025
Editorial do jornal Massas n° 745
Sob os ditames dos Estados Unidos, amplia-se e aprofunda-se a crise mundial
A classe operária tem seu programa histórico para combater e transformar o capitalismo em decomposição
No mesmo momento em que o Estado Sionista de Israel vai às últimas consequências em seu objetivo de anexação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, intensifica-se a guerra na Ucrânia e Trump avança em todo o mundo com a guerra comercial. Os Estados Unidos estão, ora por trás, ora pela frente, em todos os acontecimentos catastróficos.
A carnificina dos palestinos, cercados em seu pequeno território, como em um grande campo de concentração, chocou o mundo com as mortes causadas pela fome. As boas mentes adeptas do humanitarismo tiveram de reconhecer que o povo palestino está diante de um genocídio premeditado pelo Estado de Israel. Já não é possível convencer as mentes minimamente sadias de que a defesa da nação oprimida seria obra do antissemitismo.
A burguesia judia, amparada pelos Estados Unidos e seus aliados, conseguiu demonstrar em todas as dimensões que o sionismo histórico é obra do capitalismo da época imperialista e de sua decomposição. Eis por que o cerco econômico, social e militar aos palestinos, montado, desenvolvido e marcado a fogo e sangue, atinge o mais alto grau na forma de genocídio.
Enterra-se de vez a esperança e a ilusão de que o imperialismo, chefiado pelos Estados Unidos, estaria disposto a criar um Estado palestino, baseado nos acordos de Oslo. Não tem a menor credibilidade as declarações da França, Reino Unido, Canadá e outros países em favor do fim da guerra e do repisado reconhecimento do direito dos palestinos a um Estado.
Essas manobras no campo do próprio imperialismo evidencia a ampliação e o aprofundamento da crise no Oriente Médio, como parte do processo geral dos antagonismos mundiais entre as forças do capital monopolista e financeiro.
A guerra na Ucrânia se prolonga por três anos e cinco meses, sem que se vislumbre uma solução. Trump, no início de seu mandato, responsabilizou o governo de Joe Biden pela invasão militar da Rússia ao país vizinho, declarou que estaria disposto a negociar algumas exigências de Putin e apresentou condições para a Ucrânia arcar com os gastos bilionários dos Estados Unidos em apoio à resistência montada pelo governo de Zelensky.
O presidente norte-americano chegou a impor um acordo que concede aos Estados Unidos o direito de explorar os recursos minerais, em destaque às terras raras. Não demorou, no entanto, a se verificar que a manobra do imperialismo norte-americano não contava com a anuência das potências europeias, que estavam e estão pelo prolongamento da guerra.
Um acordo com a Rússia teria e tem de contar com a participação da União Europeia. Sendo assim, Putin teria e tem de recuar em sua pretensão de anexar a região ocupada pelas forças russas. Com sua superioridade militar, a Rússia vem conquistando passo a passo o terreno no leste ucraniano e se aproximando de Kiev. As condições para um acordo exigidas pela União Europeia, apoiadas na OTAN, significam que a derrota da Ucrânia se transformaria, na melhor das hipóteses, em uma semivitória da Rússia. O impasse permanece e as contradições econômicas e geoestratégicas que levaram à guerra permanecem com a ameaça inicial de transbordamento para a Eurásia.
Trump acusa Putin de não facilitar os passos iniciais dados pelos Estados Unidos, retoma o apoio a Zelensky e prepara novas sanções à Rússia. A OTAN foi acionada como guardiã. A declaração do seu secretário-geral, Mark Rutte, de que os países que mantiverem comercialização com a Rússia serão sancionados combinou com a guerra comercial desfechada por Trump. China, Índia e Brasil, membros ativos do Brics, encabeçam a lista de Trump-Rutte. Arcam com as mais altas tarifas e as ameaças de maior ataque econômico da parte dos Estados Unidos.
Nesse terreno cheio de contradições e de crescentes conflitos entre estados nacionais, destacam-se os bombardeios de Israel e Estados Unidos ao Irã e a escalada do armamentismo na Europa e na Ásia. A decisão da União Europeia de se rearmar e de ampliar a capacidade militar da OTAN indica o quanto o imperialismo está se preparando para uma guerra de ordem mundial.
A justificativa de que a Rússia a ameaça o ocidente europeu com o expansionismo oculta os objetivos do imperialismo de penetrar na Eurásia. O que está graficamente demonstrado nas causas que levaram à guerra na Ucrânia. Guardando as particularidades, o mesmo processo se manifesta na intervenção de Israel e Estados Unidos na Faixa de Gaza e nos ataques ao Líbano, Síria, Iêmen e, sobretudo, ao Irã.
Quanto mais visíveis se tornam os elos dessa cadeia de choques entre as forças produtivas e os Estados nacionais que se transbordam em guerras, mais urgente se torna a necessidade da classe operária e dos demais trabalhadores de se erguerem com seu programa e a estratégia da revolução social.
A amplitude que alcançou a guerra comercial dos Estados Unidos põe à luz do dia o acúmulo de crises passadas, não resolvidas e adiadas, e a perigosa marcha das tendências bélicas.
As mais distintas frações da burguesia mundial não têm como desviar o curso da confrontação dos Estados Unidos com a China e a Rússia. A adaptação da União Europeia à guerra comercial de Trump, apesar do descontentamento da Alemanha e França, não foi uma simples capitulação. Indicou uma acomodação conjuntural da burguesia europeia, para deixar o campo aberto aos Estados Unidos em seu objetivo de quebrar a China e a Rússia, guardiãs dos interesses capitalistas nacionais em partes significativas da Eurásia. Nesse fogo cruzado, se encontram as nações semicoloniais, que devem arcar com o maior peso da decomposição mundial do capitalismo.
Países como Brasil, México e Índia, que alcançaram um grau de desenvolvimento mais elevado e que possuem fartas riquezas naturais, terão de se ajustar à ofensiva econômica e militar dos Estados Unidos e aliados imperialistas. O que resultará em retrocesso e maior submissão ao capital monopolista e financeiro. As massas trabalhadoras padecerão de sofrimentos ainda maiores do que os já vividos. As questões nacionais e sociais se acham intimamente interpenetradas. Sobressaem-se diante da estratégia do imperialismo nas condições de desintegração das relações capitalistas de produção e distribuição.
O programa histórico do proletariado, em sua essência, se assenta na revolução social: na derrubada do poder da burguesia, na derrota do imperialismo, na transformação da propriedade privada dos meios de produção em propriedade social, na economia planificada, na superação das fronteiras nacionais e na harmonização da vida social entre os povos. Está colocada para a classe operária mundial a tarefa de se unir pelo fim das guerras de dominação, contra a guerra comercial e as tendências bélicas encarnadas pelo imperialismo, chefiado pelos Estados Unidos. Está colocada aos explorados em luta levantar seus organismos de poder e organizar a frente única anti-imperialista, como instrumento da revolução socialista.
Na situação, há uma defasagem entre o programa e a escassa organização da classe operária, devido à ausência do Partido Mundial da Revolução Socialista. O reconhecimento da crise de direção é fundamental para a vanguarda com consciência de classe lutar no terreno do programa histórico do proletariado, que tem suas raízes mais profundas na Revolução Russa de outubro de 1917, na edificação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e na constituição da III Internacional sob a direção de Lênin e Trotsky. A tarefa de reconstruir a IV Internacional se guia pela aplicação do seu Programa de Transição. Cabe ao Comitê de Enlace pela Reconstrução da IV Internacional (CERQUI) estar à frente desse combate.