• 16 ago 2025

    Editorial: O caminho traçado por Trump para manter a hegemonia dos Estados Unidos

Editorial do jornal Massas nº 746

O caminho traçado por Trump para manter a hegemonia dos Estados Unidos

Resposta proletária: edificar a frente única anti-imperialista

Em praticamente nove meses de governo, o republicano Trump provocou grandes tremores na economia mundial e nas relações entre países. Um exemplo flagrante foi o ataque, ainda em curso, contra o Brasil, que é um país visceralmente ligado e subordinado aos Estados Unidos. A imposição de tarifas de até 50% às exportações brasileiras vem provocando abalos internos, que se refletem na América Latina, principalmente.

A guerra comercial global se diferencia pela abrangência e pela magnitude das determinações protecionistas da burguesia norte-americana: “América em Primeiro Lugar”. As medidas internas de disciplinamento dos múltiplos interesses da classe capitalista e as externas de subordinação mundial dos países a esses interesses norte-americanos caracterizam a situação de desintegração do capitalismo, de emersão dos choques entre as fronteiras nacionais e de impulso das tendências bélicas.

Os Estados Unidos se utilizam de seu poderio econômico e militar alcançado após a Segunda Guerra Mundial para manter a sua hegemonia, que se tornou quase absoluta depois da desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A crise de 2008 eclodiu precisamente nos Estados Unidos e expôs seu declínio como carro-chefe da economia mundial. Ao mesmo tempo, evidenciou o significado da elevação da China ao patamar de segunda potência econômica e a primeira em produção industrial. É nesse terreno que se armou e generalizou a guerra comercial.

A liquidação da URSS deixou ainda mais clara a necessidade do imperialismo de destruir as conquistas da revolução socialista de 1917, para penetrar e se apossar da gigantesca e pujante região da Eurásia. A manutenção da Rússia como potência regional se deparou com a ofensiva da burguesia norte-americana e europeia sobre as ex-repúblicas soviéticas. O fato da OTAN apertar o cerco à Rússia levou à guerra na Ucrânia. O que somente foi possível devido ao objetivo norte-americano de romper a capacidade da Rússia de manter ampla influência na Eurásia. Instalou-se uma crise na Europa sem precedentes depois dos acordos de Yalta e Potsdam, que puseram fim à Segunda Guerra e estabeleceram a nova divisão do mundo.

A escalada militar pareceu refrear após o fim da Guerra Fria, sem contudo desarmar a OTAN. Era questão de tempo para que a expansão da União Europeia, apoiada nos Estados Unidos, em direção às fronteiras russas, se tornasse um campo de conflito militar. A invasão militar da Rússia na Ucrânia foi uma resposta defensiva, que se deu nas condições de guerra comercial e de escalada bélica, impulsionadas pelos Estados Unidos.

A mudança de orientação estabelecida pelo governo Trump, de impor um acordo de “paz” por cima da Rússia e da Ucrânia, não corresponde a uma política mundial de arrefecimento da guerra comercial e da escalada bélica. Os Estados Unidos têm de concentrar em seu objetivo de enfraquecer e interromper a ascensão da China. Sua economia deve ser colocada a serviço do capital monopolista norte-americano, europeu e japonês. Essa é a maior dimensão da crise mundial do pós-guerra. Faz parte dela o genocídio do povo palestino na Faixa de Gaza.

Trump deu continuidade à política de Biden para o Oriente Médio, embora o democrata usasse a intervenção militar de Israel em nome de se chegar a um Estado Palestino; o republicano, foi franco e direto, o território palestino deve ser inteiramente anexado por Israel. A operação de limpeza étnica entra na fase mais decisiva de ocupação total da Faixa de Gaza e ofensiva colonizadora na Cisjordânia. Ao mesmo tempo em que Trump se reúne com Putin para discutir um cessar-fogo na Ucrânia, alavanca a decisão de Netanyahu de levar o massacre dos palestinos às últimas consequências.

Observa-se que as frações burguesas internacionais, tanto das potências quanto das semicolônias, vêm assimilando os ataques dos Estados Unidos, em um movimento de capitulação geral. É o que atesta o acordo comercial da União Europeia e do Japão, em primeiro plano. A China é o único oponente que pode oferecer resistência às brutais exigências de Trump. A Rússia tem de decidir se vai aceitar as condições dos Estados Unidos, ou correr o risco de continuidade e intensificação da guerra na Ucrânia.

Nesse quadro, dois acontecimentos recentes chamam a atenção: a discussão de Trump com o governo libanês para “desarmar” o Hezbollah e o acordo de “paz entre Armênia e Azerbaijão”.

No primeiro caso, é um reflexo dos bombardeios ao Irã e da derrubada do governo nacionalista de Bashar al-Assad, na Síria, por um movimento pró-imperialista. O chamado eixo de resistência ao Estado sionista de Israel foi desmantelado. Essa vitória do imperialismo norte-americano isolou e neutralizou o Hezbollah, bem como fortaleceu a fração pró-imperialista que negocia o seu desarmamento.

No segundo caso, Trump obteve uma vitória contra o Irã e a Rússia, realizando um acordo entre o Azerbaijão e a Armênia. Empresas norte-americanas e com elas forças militares tomarão conta do corredor de Zangezur por 99 anos. O imperialismo norte-americano batizou esse corredor de “Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacional”. Essa rota é estratégica para o intervencionismo norte-americano no Cáucaso e na fronteira com o Irã.

O anúncio de que a Coreia do Sul está propensa a um acordo com o Japão para apagar as ações militares japonesas na Segunda Guerra Mundial, na realidade, trata-se de uma manobra arquitetada pelos Estados Unidos, que trabalham pelo isolamento da China na Ásia Oriental.

Evidentemente, a América Latina não poderia ficar à margem do intervencionismo norte-americano. Nos primeiros dias de seu governo, Trump ameaçou ocupar militarmente o Canal de Panamá e o Golfo do México para obstaculizar a presença comercial e econômica da China. O governo panamenho capitulou sob protestos da população.

O segundo passo foi o de bloquear a migração latino-americana e de deportar os imigrantes. O governo ultradireitista e obscurantista de El Salvador, Nayib Bukele, se dispôs a servir Trump em qualquer que fosse o serviço sujo. As prisões de Bukele são verdadeiros campos de concentração.

A mais recente decisão de Trump é a de enviar militares a países e regiões da América Latina em nome do combate ao narcotráfico. Os Estados Unidos inventaram a tipificação de terrorista para os cartéis de drogas, o que lhes daria o direito legal de intervir nos países signatários. Neste momento, Trump firma um acordo com o governo do Paraguai para a criação de um centro “antiterrorista”, controlado pelo Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos (FBI), na tríplice fronteira com a Argentina, Paraguai e o Brasil, com a justificativa de combater o “terrorismo” do Hezbollah e o crime organizado. O fato do Brasil não assinar a tipificação é motivo de ira de Trump contra o governo Lula. A movimentação de tropas no mar do sul do Caribe inicia esse processo intervencionista pelo imperialismo estadunidense.

Ainda é preciso saber qual será o resultado da reunião de Trump com Putin no Alasca. Qualquer que seja a decisão, será provisória e não deterá a guerra comercial e a escalada bélica. Os Estados Unidos estão em posição de ofensiva e vêm ganhando terreno. A própria China está na defensiva, esperando adiar o momento de choque aberto.

Os resultados das medidas de guerra comercial de Trump ainda não passam de previsões estatísticas. Mas, é bem provável que dificultarão ainda mais o já baixo crescimento da economia mundial e atingirão em várias magnitudes as economias nacionais. As contradições que solapam as bases da economia norte-americana não serão resolvidas com vitórias nos acordos tarifários e com algum passo positivo nas pretensões da reindustrialização.

A etapa posterior a essa movimentação internacional, de cunho nacionalista-imperialista-fascistizante, é de aumento das contradições na economia mundial e de intensificação da desintegração da ordem internacional. Nenhuma fração da burguesia e nenhuma organização como a do BRICS tem como encabeçar um movimento de reforma progressiva do capitalismo. O capitalismo da época imperialista é de guerras, revoluções e contrarrevoluções.

As guerras e contrarrevoluções tomaram a dianteira desde a derrocada da URSS e o direcionamento da China para a restauração capitalista. Esse processo evidenciou que o capitalismo é irreformável e que empurra a humanidade para as catástrofes e à barbárie.

As massas têm protagonizado lutas incessantes, mas sem que o proletariado avançasse em sua organização e retomasse o caminho das revoluções. É preciso elevar essa compreensão ao nível dos acontecimentos históricos que impuseram retrocessos ao movimento comunista internacional. A questão de classe está na base da decomposição do capitalismo, que caminha no sentido de ceder lugar às grandes transformações, cujas experiências se realizaram com as revoluções proletárias.

No momento, o programa de defesa da vida dos explorados e das nações oprimidas se impõe. O combate ao imperialismo em geral toma forma particular no combate à dominação norte-americana. São muitas as frentes de luta contra a burguesia, seus governos e o imperialismo. Trata-se de dar unidade a elas por meio da frente única anti-imperialista, sob a orientação do internacionalismo proletário.