• 25 out 2025

    Editorial: Combater a ofensiva dos Estados Unidos na América Latina e no mundo com o programa, a política e os métodos de luta da classe operária

Editorial do jornal Massas nº 751

Combater a ofensiva dos Estados Unidos na América Latina e no mundo com o programa, a política e os métodos de luta da classe operária

Defesa incondicional da Venezuela e Colômbia

Unidade latino-americana na luta operária anti-imperialista

O objetivo de Trump de derrubar o governo Maduro, da Venezuela, é explícito. Anunciou a autorização da CIA para agir no território venezuelano. Certamente, foi um aceno no sentido de que todos os meios estão sendo utilizados para criar as condições ao intervencionismo imperialista. A Venezuela está praticamente cercada por destróieres, aviões de guerra e cerca de 10 mil soldados. Os Estados Unidos pressionam os governos mais alinhados aos interesses norte-americanos a estabelecer acordos de instalação de bases militares. São os casos do Equador e Argentina.

O governo do Panamá cedeu aos imperativos de Trump, anulando o Tratado de Torrijos-Carter, de 1977, que entregava o controle do Canal ao país. Em 2019, o governo Bolsonaro e o Congresso Nacional aprovaram o acordo que permitia aos Estados Unidos utilizarem a Base de Alcântara, no Maranhão, para lançamento de foguetes. É importante ainda localizar a base na Baia de Guantánamo, pertencente a Cuba e ocupada pelos Estados Unidos desde 1903. No caso do Equador, o imperialismo norte-americano atua sobre o governo ultradireitista de Daniel Noboa a restabelecer o acordo militar, desfeito em 2009 pelo governo de Rafael Correia. E na Argentina, o governo de Milei se comporta como serviçal abrindo caminho a um acordo de instalação da Base Aérea na Patagônia, sendo que as Ilhas Malvinas ocupadas pela Inglaterra abriga forças da OTAN. No Paraguai, uma base militar norte-americana está sendo instalada na Tríplice Fronteira. Esse objetivo foi estabelecido já em 2019, ganhou força no final do governo Bolsonaro e agora Trump força o governo do Paraguai a concretizar o plano.

O Comando Sul das Forças Armadas do Estados Unidos (Southcom) está orientado a recrudescer o cerco à Venezuela e Colômbia. Recentemente, o almirante Alvin Hosley foi destituído do Comando Sul em meio a conflitos políticos que emergiram dos bombardeios aéreos que atingiram embarcações provenientes da Venezuela e Colômbia. A vergonhosa justificativa de que os Estados Unidos passaram a combater o “narcoterrorismo” em águas internacionais, porque estaria em posição de justa defesa do país, na realidade, trata-se de prepotência e arbitrariedade típicas do intervencionismo imperialista. A destruição de embarcações e as 37 mortes divulgadas são apenas um sinal de que há claras intenções de que Trump está disposto a provocar uma guerra na América do Sul atacando a Venezuela. Desencadeou-se uma operação militar no Mar do Caribe e no Pacífico nas imediações da Venezuela e Colômbia. Não se sabe ainda quais serão os próximos passos e o ritmo da agressão. Mas, tudo indica que a crise mundial tende a um maior agravamento com a guerra comercial desfechada pelos Estados Unidos contra a China.

O imperialismo norte-americano está em cruzada por um alinhamento da América Latina em torno à quebra da ascensão econômica mundial da China. Os governos venezuelano e colombiano são os principais alvos, porque agem como nacionalistas e necessitam das relações econômicas com a China. Não se pode, no entanto, desvincular os demais países latino-americanos da rede de conflitos que se teceu com a projeção da economia chinesa, que avança em todos os continentes enquanto os Estados Unidos regridem.

O caso particular do Brasil, da Argentina e do México está em que têm um papel econômico significativo, que pesa na balança dos alinhamentos surgidos nas entranhas da guerra comercial e da escalada militar. Trump conta com o governo Milei, que pode ajudá-lo nas rupturas e nos embates contra o comércio e os capitais chineses. O problema está em que o governo ultradireitista da Argentina se afoga na crise política, que ganhou novas dimensões com o fracasso das diretrizes econômicas de Milei e com a resistência dos explorados. O governo do México se movimenta em ziguezague, procurando ao mesmo tempo proteger a economia do país, extremamente dependente dos Estados Unidos, e não contrariar frontalmente os ditames de Trump. O Brasil enfrenta o tarifaço e as punições dirigidas contra autoridades brasileiras, consideradas nocivas aos interesses norte-americanos. A abertura de um canal de negociação, até então fechado pela administração Trump e desejado pela burguesia brasileira, não tem como resultar em um afastamento da China e um realinhamento com a guerra comercial dirigida pelos Estados Unidos.

O teor e o ritmo dos conflitos dos países latino-americanos com os Estados Unidos vão surgindo na medida em que a confrontação dos Estados Unidos com a China se movimenta no terreno das relações internacionais. Esse processo está condicionado ao fato de que renunciar às relações até aqui alcançadas com a China resulta em sufocamento econômico. Em particular, a economia brasileira não pode prescindir do comércio com a China e das ofertas de capitais a serem aplicados internamente em setores produtivos. É nesse marco que uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela provocaria um grande desajuste no frágil equilíbrio entre os países da América Latina.

Ocorre que não se trata de disputas isoladas no continente latino-americano. O Oriente Médio continua abalado com a intervenção militar de Israel na Faixa de Gaza. O acordo de cessar-fogo prematuramente se mostra frágil e avulta o objetivo dos Estados Unidos de anexar a Cisjordânia e liquidar a resistência palestina na Faixa de Gaza. A “Guerra de 12 dias” contra o Irã não atingiu o plano dos Estados Unidos e Israel de derrubar o regime político nacionalista. Permanece a instabilidade na Síria, Líbano e Iraque.

Na Europa, a guerra na Ucrânia não tem como ser apaziguada de acordo com as diretrizes dos Estados Unidos e as necessidades do imperialismo europeu. Governos e setores da burguesia mais empenhados em anexar a Ucrânia à União Europeia, principalmente Inglaterra, Alemanha e França, impulsionam a escalada militar claramente voltada à preparação de uma guerra com a Rússia. A recente decisão de Trump de recrudescer as sanções econômicas à Rússia e o desespero do governo ucraniano de ter acesso as armas de longo alcance e capacidade de destruição, como o mísseis Tomahawk, significam um retrocesso nas tentativas de Trump e Putin de encontrar algum termo para um acordo de cessar-fogo. Ao mesmo tempo, aumentam os embates dos Estados Unidos com a China em torno às matérias-primas, tecnologias e produção de componentes da cadeia tecnológica.

De conjunto, esses fatores econômicos, políticos e militares evidenciam que a crise mundial está em pleno desenvolvimento, sem indicação de recuo. Um respiro no Oriente Médio seria favorável à concentração dos Estados Unidos em sua guerra comercial com a China e em sua determinação de impor um interregno na guerra da Ucrânia.

Em toda parte, avultam as crises políticas e despontam movimentos dos explorados. A greve geral na Itália e as inúmeras manifestações pelo fim do genocídio na Faixa de Gaza se projetaram como sintoma da luta de classes. Os protestos massivos nos Estados Unidos contra as medidas ditatoriais de Trump se somam às tendências das massas responderem com a ação direta às expressões políticas desencadeadas pela decomposição do capitalismo e pela crescente barbárie social.

A classe operária esbarra em suas próprias organizações, que são os sindicatos estatizados e corrompidos pela política de colaboração de classes. Ressente-se da ausência do partido revolucionário ou do seu estágio embrionário. Essa contradição não impede que os explorados se levantem em defesa de suas necessidades e que da situação objetiva da crise mundial emerja o programa da revolução social. Essa é a via por onde passa a luta anti-imperialista e anticapitalista. Por onde se erguerá a frente única anti-imperialista, com o organização revolucionária dirigida pela política do proletariado.