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12 jan 2026
Editorial do jornal Massas nº 755
Passos da confrontação dos Estados Unidos com a China
Invasão da Venezuela e sequestro do presidente Nicolás Maduro são consequências militares da potente guerra comercial
Somente o proletariado à frente da maioria oprimida tem como enfrentar e derrotar a marcha bélica impulsionada pelo imperialismo norte-americano e potências aliadas
A clareza e determinação como Trump expôs e justificou seu plano para a subordinação colonial da Venezuela advêm da necessidade objetiva dos Estados Unidos confrontarem no plano internacional a expansão econômica da China. Foi incisivo em seu objetivo de se apossar da maior reserva petrolífera mundial. Em meio à guerra comercial, se encontra a guerra pelo controle das fontes de matérias-primas e recursos energéticos. A China exerce o monopólio sobre a estratégica fonte de terras raras, mas depende visceralmente do petróleo. Os Estados Unidos chegaram à conclusão de que não podem relevar a penetração econômico-comercial na América Latina e a crescente influência política da China voltada a setores da burguesia e a governantes. Chegou o momento do imperialismo norte-americano bloquear e destroçar os vínculos da potência asiática emergente com os países economicamente mais importantes e detentores de vastos recursos naturais.
A burguesia estadunidense se convenceu de que o grau de interdependência de países latino-americanos com a China tem de ser revertido antes de criar raízes profundas no continente. A ofensiva determinada por Trump destinada à manutenção da poderosa ascendência dos Estados Unidos sobre a América Latina faz parte da guerra comercial e da escalada bélica em termos mundiais. A Casa Branca se movimenta no sentido de levantar trincheiras e minar terrenos por onde poderá passar a confrontação com a China e aliados, como a Rússia e Irã.
A operação militar na Venezuela e a exposição de um plano de controle do petróleo foram seguidos de arroubos da ambiciosa anexação da Groenlândia, a despeito da contrariedade da Dinamarca e da União Europeia. O mapa expansionista dos Estados Unidos abrange o México e o Canadá. É por essa via que se projeta internacionalmente a guerra comercial.
O documento “Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos”, de novembro de 2025, define a velha tese imperialista da “paz através da força”, ou seja, “a força é o melhor fator de dissuasão, países ou outros atores suficientemente dissuadidos de ameaçar interesses americanos não o farão”. Refere-se, principalmente, sem nomear, à China e Rússia, que são potências nucleares e que guardam a particularidade de terem realizado a revolução social e reincorporado às relações capitalistas mundiais pela via da restauração.
A China, distintamente da Rússia, por sua gigantesca capacidade econômica, alcançou uma significativa abrangência na América Latina. A importação chinesa de petróleo da Venezuela e sua crescente participação na estrutura da indústria petrolífera venezuelana se enquadram na estratégia norte-americana da “paz através da força”. O que significa barrar a penetração da China na economia petrolífera da Venezuela.
O cerco militar montado no mar do Caribe foi concebido para intervir diretamente no país e sequestrar o presidente Nicolás Maduro, e indiretamente para mostrar as armas à China e Rússia. Nesse mesmo sentido, Trump indicou que outros países, como a Colômbia, México e Brasil, também estão em sua mira.
Não teve a menor importância para seus cálculos militares a grita burguesa contra a “ditadura de Maduro” e a “ilegitimidade eleitoral” de seu governo. Esse fato político desconsertou os governos que condenaram em palavras a violação da “ordem jurídica regida pela Carta da ONU” e, assim, da soberania nacional. O que põe em risco “a paz e a segurança na América Latina”. O Conselho de Segurança da ONU se reuniu para cumprir mera formalidade. Os Estados Unidos se valeram de uma burda falsificação afirmando que não estava em guerra com a Venezuela. Essa mesma justificativa foi apresentada ao Congresso norte-americano para desfazer os inúteis rumores dos democratas.
As três fases apresentadas pelo Secretário de Estado, Marco Rubio – estabilização, recuperação e transição –, quer dizer que a Venezuela já está sob o controle externo decidido pelos Estados Unidos. Implica transformar a presidente interina, Delcy Rodriguez, em fantoche das decisões de Trump. O cálculo do imperialismo é de que arrancando Maduro da presidência se rompeu uma peça chave e assim já não haverá a governabilidade chavista. Não havia como entregar o poder do Estado a Maria Corina Machado e Edmundo González sem que houvesse uma grande rejeição dos venezuelanos e uma enorme dificuldade de organizar um novo governo sem desmontar o aparato militar que sustentava as diretrizes políticas de Maduro.
O cerco militar continua ameaçando o governo, que premido se dispôs a ceder o controle do petróleo. Já não pode sair nenhum navio petroleiro sem o consentimento de Trump. A invasão de Caracas e o sequestro de Maduro foi tão fulminante que o governo perdeu completamente qualquer capacidade de reação. A morte de cerca de 100 soldados e civis – até agora não se tem com precisão – e nenhuma baixa nas forças invasoras expuseram a fragilidade da Venezuela.
As manifestações convocadas não alcançaram a altura que deveriam ter nas condições de um ataque imperialista tão prepotente e sanguinário. Sem uma comoção nacional e com uma posse da vice-presidenta em um cerimonial suspenso no ar, o governo Trump pôde apresentar as três fases e obter imediatamente a concessão da entrega do petróleo.
Certamente, tal incapacidade se explica fundamentalmente pela desorganização do proletariado como classe independente e pela ausência de um partido revolucionário. O nacionalismo chavista primou pela dissolução de organismos operários e populares, surgidos no processo da denominada Revolução Bolivariana. Perseguiu sua vanguarda combatente e substituiu as organizações de base por organismos estatais-burocráticos.
A Venezuela, tudo indica, entra em um novo momento de sua história. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) não só fracassou na tarefa de avançar as transformações democráticas como passou a atravancá-las, estatizando as organizações operárias, camponesas e populares.
O humilhante sequestro do presidente Maduro foi calculado pelo imperialismo para submeter o que restou do governo. A luta pela soberania da Venezuela e pela libertação de Maduro depende inteiramente de a classe operária venezuelana colocar em pé uma frente única anti-imperialista, embasada no programa da revolução social. É preciso ter claro que se trata de uma luta de todos os explorados da América Latina.
A crise mundial continua em marcha ascendente e em suas entranhas potenciam as tendências bélicas. Os explorados de todo o mundo sentem os perigos que afluem da decomposição do capitalismo e buscam o caminho da luta de classes. É nesse terreno que se dará a continuidade da luta anti-imperialista. Trata-se da vanguarda com consciência de classe trabalhar persistentemente pela superação da crise de direção, que é o grande obstáculo ao combate anti-imperialista e ao desenvolvimento da estratégia da revolução e ditadura proletárias.