• 26 abr 2026

    Editorial: A longa guerra na Ucrânia, a devastação da Faixa de Gaza, a intervenção na Venezuela, a ofensiva contra o Irã e os ataques ao Líbano indicam a amplitude da crise mundial do capitalismo

Editorial do jornal Massas nº 762

A longa guerra na Ucrânia, a devastação da Faixa de Gaza, a intervenção na Venezuela, a ofensiva contra o Irã e os ataques ao Líbano indicam a amplitude da crise mundial do capitalismo

A classe operária, os demais trabalhadores e os povos oprimidos estão diante de guerras de dominação

Ressalta a necessidade histórica de superar a crise de direção

Permanece o impasse da guerra na Ucrânia, sem que se vislumbre um acordo de encerramento. O fracasso da tentativa de Trump de ditar um cessar-fogo se deve, em grande medida, à resistência da União Europeia e Inglaterra. O governo e a oligarquia ucranianos não poderiam sustentar a guerra por mais tempo se não fosse a divergência entre os interesses imperialistas dos Estados Unidos e dos Estados europeus em torno às condições de um acordo que presumivelmente implicaria uma partilha do país.

O acordo de paz dos cemitérios de Trump imposto à Faixa de Gaza não tem sido cumprido pelo Estado de Israel. A explicação está em que a oligarquia burguesa israelense está pela anexação territorial. Estabelecido o vínculo da devastação e ocupação da Faixa de Gaza com a ofensiva contra o Hezbollah no Líbano, os Estados Unidos e Israel ampliaram a guerra para o Irã.

Os Estados Unidos decidiram também promover uma guerra na América Latina, cercando, invadindo e sequestrando o presidente da Venezuela. Somente não convulsionou o continente latino-americano porque o Estado venezuelano e seu governo se mostraram incapazes de oferecer qualquer resistência militar. Consequentemente, a orientação militarista do imperialismo norte-americano amedrontou a burguesia e os governantes latino-americanos. Trump vem impondo, passo a passo, seu objetivo de cercear os vínculos econômicos e políticos da América Latina com a China.

A guerra da Rússia com a Ucrânia se tornou inevitável no momento em que o governo e a oligarquia ucranianos estavam prestes a submeter o país à União Europeia e aos Estados Unidos. Esse passo ampliaria enormemente o cerco militar da OTAN à Rússia. A reconstituição do poderio da burguesia imperialista europeia – impulsionada pelas contrarrevoluções restauracionistas no Leste Europeu e a incorporação das ex-repúblicas soviéticas do Báltico – fortaleceu os alicerces da OTAN e possibilitou à União Europeia ganhar terreno nas disputas territoriais, que se abriram com o processo de restauração capitalista e liquidação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No entanto, o processo de declínio econômico da Europa e as dificuldades dos Estados Unidos em manterem a hegemonia conquistada após a Segunda Guerra Mundial se encontram na base das guerras de dominação.

É vital para os interesses dos monopólios industriais e do capital financeiro se apossarem de regiões em que se conservam abundantes recursos naturais, como é o caso da Eurásia, Oriente Médio, América Latina e África. A questão ucraniana emerge dessa disputa pelas fontes de matérias-primas. É o que se constata também na questão venezuelana e iraniana.

A elevação da China como potência econômica, que no início do seu processo de restauração capitalista se apresentou como um respiradouro para o sufoco dos Estados Unidos e da Europa, acabou por colocá-la no centro da crise mundial do capitalismo. Eis por que a escalada bélica na Ásia Oriental não tem como ser desvinculada do rearmamento europeu.

Com sua gigantesca capacidade industrial, a China concorre com as demais potências econômicas pelas fontes de matérias-primas. A guerra comercial desfechada nos primeiros dias do governo Trump tem como objetivo central combater o avanço mundial da China. Os Estados Unidos estão em franca rota de colisão com a expansão econômica da potência asiática.

Não há como a Rússia se desvincular dessa confrontação. A guerra na Ucrânia e a ampla aliança imperialista que se armou no início obrigaram a Rússia e a China a se manterem no mesmo campo de resistência estratégica à ofensiva mundial dos Estados Unidos.

As mudanças de orientação de Trump em relação à Ucrânia tinha e tem por objetivo minar as boas relações entre o Estado russo e o Estado chinês. No entanto, não pôde prosperar diante dos desacordos da União Europeia. Do intervencionismo na Faixa de Gaza, os Estados Unidos e Israel expandiram o conflito com a guerra contra o Irã, agudizando a crise mundial.

Ao afetar o comércio do petróleo, gás e outros derivados, a ação do imperialismo atingiu imediatamente, sobretudo, a Europa, que já se ressentia do mesmo mal que se derivou da guerra na Ucrânia. Se se prolongar essa situação, a China poderá ser igualmente ou mais castigada. A decisão de Trump de suspender temporariamente as sanções contra a Rússia no que diz respeito ao petróleo foi um sintoma dos perigos que estavam trazendo o bloqueio do Estreito de Ormuz e as ações do Irã contra os países do Golfo Pérsico que mantinham e mantêm conivência com os Estados Unidos e Israel.

O imperialismo norte-americano se instalou na Venezuela e passou a controlar abertamente o que restou do governo de Nicolás Maduro. Pôde apertar o cerco a Cuba, alinhar a maior parte dos governos latino-americanos e concentrar as pressões sobre o Brasil, que é uma potência em recursos naturais. Passo a passo, Trump alimenta tensões do Brasil com a China. Liquidou o governo nacionalista da Venezuela para controlar o petróleo e as vastas riquezas naturais. Na realidade, não só a Venezuela e o Brasil se defrontam com tal ofensiva, como os demais países da América Latina. A esperança de que a aprovação do acordo do Mercosul com a União Europeia irá contrabalançar o peso dos Estados Unidos e diminuir a dependência com a China, tudo indica, será em vão.

Prevalecem a guerra comercial e as tendências bélicas. A via para acordos pacíficos se acha extremamente estreita. É o que acaba de evidenciar a “4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre”, realizada na Espanha, que se mostrou impotente diante das calamidades provocadas pelas intervenções e guerras. Nem bem Lula e sua plêiade de ministros haviam concluído sua peregrinação na Europa, 27 Estados-membros da União Europeia se reuniram em Chipre para se regozijarem da derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, porque o novo governo destravou o empréstimo de 90 bilhões de euros a Zelenski. Autoridades europeias e ucranianas montaram um “Plano de Ação UE-Ucrânia”, que estabelece uma “Cooperação em Minerais Críticos”. Se aventou a possibilidade no futuro de incorporação da Ucrânia na União Europeia, o que seria uma contribuição para o plano “Uma Europa, Um Mercado”. Discutiu-se, também, como a Europa atingirá uma capacidade militar própria, no caso dos Estados Unidos deixarem a OTAN. Essa reunião foi um sinal de prolongamento da guerra, que entrou no seu quinto ano.

Esses acontecimentos, fatores e consequências catastróficas expõem as tendências mais profundas de desintegração do capitalismo mundial e de potenciação da barbárie social.

A resistência das massas é o caminho de combate à sociedade capitalista e à sua maior expressão que é a dominação imperialista. Há uma multiplicidade de manifestações que refletem a condenação dos explorados e dos povos oprimidos às guerras de dominação. Certamente, a sua capacidade ainda está aquém dos brutais acontecimentos. O fundamental, porém, se verifica no descontentamento da classe operária e dos demais trabalhadores, que vêm sendo sacrificados com o desemprego, a pobreza e a miséria. A classe operária mundial terá de reagir com unidade e maior força às guerras de dominação.

A vanguarda com consciência de classe não só compreende a gravidade da situação como trabalha no seio dos explorados, respondendo a cada ataque da burguesia e avançando na tarefa de superar a crise de direção. Tem em suas mãos a larga experiência da luta de classes contra o imperialismo e as guerras de dominação. Tem os fundamentos do programa da revolução social. No momento, é urgente traduzir as bandeiras de defesa incondicional das nações oprimidas por meio da organização da frente única anti-imperialista.

O que implica a luta pelo fim da guerra na Ucrânia, que estabeleça a unidade da classe operária ucraniana e russa, que derrote a ofensiva da OTAN contra a Rússia, que leve à real autodeterminação do povo ucraniano e que expresse uma paz sem anexação conquistada por meio da luta de classes. O que implica a luta pelo fim imediato da ocupação da Faixa de Gaza, dos ataques ao Líbano e da guerra contra o Irã. O que implica a luta pela expulsão dos Estados Unidos da Venezuela e pela libertação do presidente Nicolás Maduro. O que implica unir local, regional e mundialmente a classe operária e os demais trabalhadores contra as guerras de dominação, respondendo com as guerras de libertação, sob o programa da revolução social.