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12 abr 2026
Editorial do jornal Massas nº 761
As manobras dos Estados Unidos em busca da quebra da resistência do Irã
Todo apoio à resistência do Irã!
O caminho para derrota o imperialismo é o da organização e mobilização das massas oprimidas
Em 24 de março, Trump divulgou 15 pontos de um plano para cessar-fogo e estabelecer uma trégua. As condições para tal acordo consistiam em capitulação do Irã. Basicamente, o programa nuclear seria eliminado, o estoque de urânio enriquecido entregue aos Estados Unidos, especialistas norte-americanos passariam a controlar o desenvolvimento da energia nuclear, haveria um limite para o armamento do país, seriam rompidas todas as relações do governo iraniano com as organizações de resistência e o Estreito de Ormuz deixaria de estar sob o controle dos iranianos.
Tais condições foram precedidas da ameaça de bombardeios e intervenção militar que acabariam com a civilização persa: em suas palavras, “toda uma civilização morrerá.” Concretamente, Trump afirmou que autorizaria a destruição de toda infraestrutura petrolífera, invadiria a ilha de Kharg e tomaria o Estreito de Ormuz. Como demonstração de força, o Pentágono aumentou o contingente de soldados que se somariam aos cinquenta mil que se encontram no Oriente Médio. Bastariam a ocupação de Kharg e a tomada do Estreito de Ormuz para esmagar economicamente o Irã, segundo os cálculo de Trump.
Um chamado nacional feito pelo governo do Irã à mobilização foi atendido e as usinas termoelétricas ameaçadas de bombardeio foram cercadas por uma “corrente humana”, destacando a presença massiva de mulheres. Demonstração tão decida diante do inimigo que, logo no início da guerra bombardeou uma escola deixando dezenas de crianças mortas, expôs aos povos de todo o mundo a inquebrantável defesa na nação oprimida. Aos 15 pontos da Casa Branca, o governo iraniano contrapôs de forma precisa as condições de um acordo: “fim permanente das hostilidades, reparação de guerra, soberania iraniana sobre o Estreito de Ormuz, cessar-fogo em todas as frentes, incluindo o Líbano e garantias de que o país não será atacado de novo.”
As recorrentes e contundentes ameaças de Trump – amparadas no poderoso aparato bélico e nas limitações da capacidade defensiva do Irã – se avultaram nas condições de prolongamento da guerra, da evidência de que não basta apenas despejar bombas, disparar mísseis, assassinar lideranças governamentais, aterrorizar a população com a mortandade de civis, destruir parte da infraestrutura para derrotar o país e impor as condições norte-americanas de rendição.
Os Estados Unidos e Israel se viram diante de um Irã preparado para interromper o fluxo do petróleo pelo Estreito de Ormuz, capacitado a comprometer parcialmente a produção e a distribuição do petróleo dos países do Golfo Pérsico e, assim, se valer da posição geoestratégica para impulsionar a crise econômica mundial, que já vinha se agravando com a guerra comercial e com o prolongamento da guerra na Ucrânia, bem como dos crescentes conflitos militares na Ásia e na África. Cabe assinalar a enorme dimensão da operação militar de Trump na Venezuela, que concluiu com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, e que não fez senão potenciar a crise capitalista na América Latina.
Tem sido importante o fato do Irã não ter se intimidado e se iludido como as manobras verbais de Trump. Seu governo negou terminantemente a ocorrência de negociações, sem se negar a discutir os termos do fim da guerra. Está claro que Trump se utiliza do governo de Israel para o objetivo estratégico de quebrar a espinha dorsal do nacionalismo persa.
Os conflitos permanentes desde a revolução islâmica de 1979 se circunscreveram à necessidade do imperialismo norte-americano de exercer amplamente sua hegemonia no Oriente Médio e do colonialismo sionista israelense de expandir suas fronteiras muito além das porções conquistadas nas guerras de Seis Dias, de 1967, e a de Yom Kipur, de 1973. Não há como desconhecer a interdependência da invasão e destruição da Faixa de Gaza e da ampliação da colonização judaica da Cisjordânia com a guerra contra o Irã.
O Líbano se encontra preso a esse emaranhado desde a derrota dos árabes na guerra de Yom Kipur. A guerra civil de 1975, que marcou profundamente o país, depois das lutas por sua independência do colonialismo francês em 1943, esteve vinculada à ascendência do Estado Sionista e ao fortalecimento da resistência armada da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) que, expulsa da Jordânia em 1970, à custa de massacre, se refugiou no Líbano. As primeiras ações militares de Israel no Líbano, em 1978, indicaram que os libaneses enfrentariam diuturnamente convulsões gestadas em grande medida por pressões externas.
O percurso do expansionismo de Israel ganharia força na fronteira com o sul do Líbano, onde os sionistas armaram uma facção contrária às posições palestinas. O massacre no campo de Sabra e Shatila levado a cabo pela milícia maronita contou com o apoio de Israel, que havia invadido o Líbano em setembro de 1982 em sua guerra contra a resistência palestina. Esse choque intervencionista vai até o ano 2000, quando Israel se retira do território libanês. Seis anos depois, em 2006, se acirra a confrontação com o Hezbollah xiita, que foi fundado em 1978, com apoio do Irã em meio à guerra civil e ao intervencionismo de Israel, Síria e Estados Unidos, sobretudo.
Tornou-se inevitável que a ex-colônia francesa viesse a ocupar um lugar de grande importância no processo de implantação do Estado de Israel, de seu percurso expansionista contrário à criação de um Estado palestino e de ascensão do imperialismo norte-americano no Oriente Médio. Agora, a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ocorre em uma situação de quase desmantelamento da resistência palestina. O Hamas foi extremamente golpeado na Faixa de Gaza e o Hezbollah enfraquecido no Líbano. A resistência antissionista não pode contar com a Síria, depois da queda do governo de Bashar al-Assad. Israel nunca teve a seu favor uma situação tão segura para impulsionar as anexações. Esmagando o Irã, o caminho pode ficar mais aberto, a depender do quanto os Estados Unidos controlarem as monarquias árabes e do quanto essas serão capazes de sufocar o descontentamento dos oprimidos em seus países.
A primeira tentativa de Trump impor um acordo ao governo iraniano fracassou. Israel rompeu uma das condições do cessar-fogo provisório e da abertura do Estreito de Ormuz, desfechando um brutal ataque no Líbano. Contabilizaram-se mais de trezentos mortos. A posição do governo israelense é de que a anexação do sul do Líbano não faz parte do acordo. O que está conforme com a política expansionista do Estado sionista.
Trump e Netanyahu manobram à espera de aumentar a pressão sobre o Irã. Estão armando uma reunião como governo libanês, para demonstrar que não consegue desarmar o Hezbollah. O que resta é manter a ofensiva militar como a realizada na Faixa de Gaza. Na hipótese de se chegar a um denominador comum, permanece o objetivo de liquidar a resistência antissionista e golpear o nacionalismo iraniano. É o que Trump procura obter na mesa de negociação formalmente orquestrada com o governo do Paquistão.
A denúncia do Irã de que Israel violou a tratativa inicial que incluía o fim dos ataques ao Líbano não teve como ser respondida por Trump. A insistência dos Estados Unidos já não inclui destruir e mudar o regime político no Irã. Voltou-se à questão do desmantelamento das usinas nucleares e da entrega do urânio enriquecido.
O primeiro-ministro da Alemanha criticou a conduta de Israel como um risco para o “processo de paz”. Na mesma linha, se pronunciaram o presidente da França, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. Trump não reduz sua pressão sobre os aliados imperialistas europeus, que estão descontentes com sua política exterior, afirmando que sua vontade é a de retirar os Estados Unidos da OTAN. As discórdias cresceram com a decisão unilateral dos Estados Unidos de protagonizar a guerra contra o Irã, que já não era capaz de desviar o curso das vitórias do Estado de Israel no Oriente Médio. Ocorre que o imperialismo norte-americano tem pela frente a confrontação com a China. E a União Europeia e a Inglaterra estão a todo vapor impulsionando as tendências bélicas sob a perspectiva de uma guerra com a Rússia, que por ora vence a guerra contra a Ucrânia. Não estão bem definidos os passos de Trump em relação à resistência do Irã. Mas, está claro que a crise no Oriente Médio tem tudo para se agravar ainda mais. É parte da crise mais geral do capitalismo mundial.
A vanguarda com consciência de classe tem a vantagem de a maioria dos explorados estar contra a guerra e o esmagamento do Irã. Houve um recuo da luta contra o genocídio do povo palestino, principalmente depois da imposição da paz dos cemitérios de Trump na Faixa de Gaza. É um recuo temporário. As contradições econômicas do capitalismo em decomposição vêm gestando as revoltas instintivas, inclusive nos Estados Unidos. Trata-se de guiar a ação política no seio da classe operária e dos demais explorados no sentido da defesa de suas condições de existência e da revolução social.
A luta anti-imperialista está posta, como está posta a tarefa de organizar a frente única anti-imperialista. Pelo fim imediato da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Pela retirada imediata das Forças de Defesa de Israel do Líbano e fim dos bombardeios. Defesa e apoio incondicional da nação oprimida contra a nação opressora!