• 28 mar 2026

    Editorial: Somente a maioria nacional oprimida sob a direção da classe operária pode defender a soberania nacional

Editorial do jornal Massas nº 760

Somente a maioria nacional oprimida sob a direção da classe operária pode defender a soberania nacional

A ofensiva dos Estados Unidos em todo o mundo para impor seus interesses econômicos e sustentar sua hegemonia em declínio coloca para os países de economia atrasada e semicolonial a questão de como se defender. Nessas condições, ressurge o problema da soberania nacional. Países como a Venezuela e o Irã expressam claramente a relação de dominação imperialista. A intervenção militar no país latino-americano e a guerra contra o país do Oriente Médio estampam a incompatibilidade entre a dominação das potências e a independência nacional dos países semicoloniais.

As potências concorrem para explorar, saquear e submeter politicamente os estados nacionais débeis. Trata-se de relações altamente avançadas na época de desenvolvimento imperialista do capitalismo. O entrelaçamento entre a minoria de potências com a imensa maioria de semicolônias resultou e resulta em aumento de concentração de riqueza e poder político-militar. É o que demonstra o domínio dos monopólios industriais, comerciais e financeiros sobre a economia mundial pelos Estados Unidos e seus poucos sócios menores. A lei histórica do desenvolvimento desigual e combinado está na base do funcionamento imperialista da economia mundial.

Nas situações de crise geral, como a que o mundo atravessa, avulta a necessidade da classe capitalista em proteger seus capitais aumentando a taxa de exploração do trabalho e avançando o controle econômico sobre a semicolônias. Inúmeras foram as crises pregressas que levaram as potências a reordenarem suas posições econômicas pela via do intervencionismo militar e das guerras. Eis por que têm predominado as guerras de dominação. O resultado conclui no recrudescimento da opressão nacional.

A contraposição a essa consequência estrutural se manifesta nas revoluções que impuseram a real independência nacional. As experiências do século passado deram a dimensão histórica do curso da luta de classes que coloca o objetivo estratégico de derrotar o imperialismo e as frações da burguesia nacional dos países semicoloniais que sujeitam o país aos monopólios internacionais. Nesse combate anti-imperialista e anticapitalista, destacaram a Revolução Russa na Primeira Guerra e a Revolução Chinesa na Segunda Guerra Mundial. A expropriação da burguesia pelo proletariado em aliança como os camponeses pobres e a constituição dos Estados Operários deram lugar à defesa da independência nacional em todos os continentes. Confirmou-se que a luta anti-imperialista da maioria oprimida está no âmago da revolução social, que por sua forma é nacional e seu conteúdo, internacional.

O avanço ou recuo da luta de classes pela libertação dos explorados em todo o mundo e das nações oprimidas determinam o alcance da dominação imperialista. A ofensiva geral dos Estados Unidos, sob o governo Trump, se desencadeia nas condições de profundos e amplos retrocessos, materializados pelo processo de restauração capitalista que levou ao desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e que subordinou a China à órbita do capitalismo mundial.

A Rússia se viu obrigada a invadir a Ucrânia – uma ex-República Soviética, cujo destino é o de ser mais um país semicolonial -, cercada que estava pela OTAN. E a China enfrenta a guerra comercial. A escalada bélica se projeta em pleno vapor. Nesse marco de retrocesso e de impulso dos Estados Unidos por manter seu domínio alcançado após a Segunda Guerra, se ergue a bandeira anti-imperialista de soberania e defesa incondicional das nações oprimidas.

Trump obteve um grande êxito contra a Venezuela e agora avança sobre Cuba, de forma a eliminar completamente as conquistas da revolução de 1959. A América Latina abriga uma importante vitória dos Estados Unidos em seus propósitos de arrancar de seu caminho aquelas nações que conseguiram manter a soberania nacional à custa de pagar caro pelo cerco econômico e militar. No Oriente Médio, o Irã também arca com o brutal cerco dos Estados Unidos e do seu braço armado, o Estado de Israel. A diferença está em que tem conseguido resistir. Suas condições são mais favoráveis que as da Venezuela, tanto econômico quanto militarmente. É obrigatório apoiar todo tipo de resistência da nação oprimida.

A similaridade dos dois casos se encontra no fato de serem portadores de vastas reservas de petróleo. O imperialismo norte-americano já não pôde conter suas ações nos limites das sanções econômicas e da sufocação da vida social dos adversários que insistiram na soberania nacional. Passou, assim, ao cerco militar e à guerra.

A Venezuela escapou dos bombardeios e da invasão por terra pelo fato de o Estado e seu regime nacionalista não terem resistido ao cerco naval, que foi sendo montado desde o Caribe. O cerco econômico de anos a fio conseguiu desmoronar a economia venezuelana. O seu brutal isolamento foi possível devido à ausência de reação soberana dos países irmãos da América Latina, e, sobretudo, pelo retrocesso da luta anti-imperialista travada pelos explorados. Por si só, essa constatação reflete o quanto os países latino-americanos estão subordinados à ascendência do imperialismo norte-americano sobre o continente. A retomada do total controle do canal do Panamá em detrimento da presença dos capitais chineses sob a ameaça do intervencionismo dá a dimensão do quanto a América Latina se move tumultuadamente em meio à guerra comercial e à escalada militar.

A persistência do Irã em não desmantelar a indústria petrolífera nacionalizada e não ceder o controle do estreito de Ormuz potenciou o choque nacional com o imperialismo ianque, que impôs sua hegemonia no Oriente Médio, principalmente depois da Segunda Guerra. Muito ajudou nessa ascensão e abrangência a criação do Estado de Israel. Esse enclave é muito mais do que a cessão de países árabes à instalação de bases militares norte-americanas. Mas, o Irã encontrou apoio em países como o Iêmen, Líbano, Faixa de Gaza e Síria. O que impossibilitou que os Estados Unidos o isolassem completamente. Esse embate se deu no terreno da longa resistência política, dos conflitos permanentes, do intervencionismo militar e das guerras civis.

A guerra de dominação dos Estados Unidos e de Israel para acabar com a soberania do povo iraniano se dá em um momento de arremetida geral dos Estados Unidos para se impor mundialmente sobre as nações semicoloniais que procuram a via da independência, que não suportam as imposições dos monopólios norte-americanos e aliados. A resistência do Irã demarca a linha divisória entre a defesa nacional e a submissão nacional. O que o distingue da capitulação do regime nacionalista venezuelano destroçado pela crise interna.

A ofensiva de Trump na América Latina conquistou e vem conquistando terreno não só pela subordinação da Venezuela e pelo avanço sobre Cuba, mas também pelo alinhamento ditado à maioria dos países do continente que se acham sob a direção de governos pró-imperialista. O Brasil vem sofrendo uma poderosa pressão para limitar a crescente presença da China e alargar ainda mais a influência dos Estados Unidos. O que está em questão, sobretudo, são as fontes de matérias-primas.

O governo nacional-reformista de Lula vem sendo acuado em torno à entrega das terras raras aos capitais norte-americanos. É sintomático que o governador de ultradireita do estado de Goiás, Ronaldo Caiado, tomou a frente em negociar um acordo com um encarregado de negócios dos Estados Unidos. A ousadia de desconhecer o federativismo e passar por cima da União surge nas condições de endurecimento da subordinação da América Latina ao imperialismo e do recuo dos movimentos nacionalistas, que como tal se acham extenuados pelos fracassos em sustentar a soberania nacional. A ultradireita e direita burguesas se apoiam na arremetida dos Estados Unidos e na incapacidade do governo de responder para assim retomarem a condução governamental do Brasil.

Nenhum regime nacionalista, nenhum governo nacional-reformista tem como sustentar a soberania nacional nas condições de avanço da desintegração do capitalismo, de impulso da guerra comercial e de escalada bélica. Somente o proletariado, apoiado na maioria oprimida e munido do programa da revolução social pode combater o imperialismo com os métodos da luta de classes e impor a soberania nacional. Nesse marco de combate, é fundamental reunir as forças revolucionárias em torno à frente única anti-imperialista.